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TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

Reservam-se todos os direitos de propriedade do autor

ARACELI S. MELLO

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS

DAS

PROFECIAS DE DANIEL

RIO DE JANEIRO

1968

PALAVRA DO AUTOR

Em 1959 veio à luz o meu primeiro exaustivo trabalho: — A Verdade Sobre as Profecias do Apocalipse. Como, porém, há certa afinidade entre as profecias do Apocalipse e as de Daniel, meu anélo foi escrever uma segunda obra — A Verdade Sobre as Profecias de Daniel. Tanto as profecias de Daniel como as do Apocalipse — constituem uma síntese profética antecipada de acontecimentos internacionais — civis e eclesiásticos — pelo que ambos os dois livros só poderão ser satisfatoriamente explanados por uma ampla documentação histórica evidente. É grave delito contra o divino Revelador fazer uma diminuta exposição de suas grandes e solenes profecias, deixando assim o leitor e investigador sem o devido esclarecimento. Ninguém acatará e aceitará como vinda de Deus uma mensagem mal esclarecida, mal documentada e portanto mal interpretada. A verdade celestial deve ser apresentada com inconfundível clareza. Quem crerá numa simples epítome sobre os tão importantes livros de Daniel e do Apocalipse? Já o rabujento preconceito dos declarados incrédulos e dos infiéis cristãos — exige que se dê a estes livros uma explanação coerente, ampla e convincente, em vez duma apreciação ridícula para ser recusada com manifesto desinteresse. Foi para salvaguardar a sua responsabilidade diante de Deus de não pôr nas mãos do público uma obra desonesta, mesquinha e ambígua, que desinteressasse em vez de interessar o leitor ou pesquizador da verdade, deixando-o por isso mesmo longe de Deus como antes, — que o autor em sua exposição das profecias de Daniel deu amplitude de explanação fazendo com que a luz das profecias brilhasse com intensidade e o esclarecesse arrebatando-o das trevas da incerteza para o meridiano sol da Revelação de Deus e o abençoasse ricamente. Cada pormenor das profecias de Daniel foi esclarecido à luz dos fatos verídicos que os cumpriram em cheio. Em nenhum caso usou o autor de subterfúgios e mistificações para evadir-se à realidade do verdadeiro significado da Revelação. Sôbre impérios e indivíduos

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alvos das profecias de Deus que no passado existiram e que, portanto, já cumpriram o seu papel no palco da História e da profecia, foi o autor desta obra claro e imparcial. Sôbre os poderes civis e eclesiásticos que atualmente desempenha de igual modo o seu papel histórico-profético no palco da hodierna civilização, foi êle também imparcial, sem rodeios, sem paixão e sem sacrificar a verdade em suas considerações. Certamente haverá aqueles que se oporão a determinadas explanações dadas pelo autor sôbre as profecias de Daniel. A êstes dizemos que têm todo o direito de o fazer. Porém, antes de tomarem uma medida drástica, será prudente examinar bem o ponto de oposição que formularem para estarem seguros ou não do passo que pretendem dar; que sejam ponderados e coerentes; que reflitam somente para poderem apreciar maduramente aquilo que pareça chocar-lhes as velhas idéias próprias e metê-los num imaginário cáos, em face duma interpretação desconhecida e aparentemente controvertida; que não fiquem desrazoavelmente desorientados e a trovejar sôbre o autor, mas que sejam indulgentes para com êle que, como êles, tem também o direito de pensar. Nada melhor e mais acertado do que examinar aquilo que se desconhece. A luz nasce do acurado exame. É êste o meu anélo a todos quantos entrarem em contato com este livro. Confrontem êles detidamente a profecia e a sua explanação dada à luz do comprovante histórico justaposto; se algo estiver comprovadamente incorreto, serei bastante humilde para dar a mão à palmatória e receber a inexorável condenação como justa. Urge, todavia, uma investigação com perícia, desapaixonada e desacompanhada de fatais preconceitos injustos e prejudiciais. Na interpretação das profecias de Daniel como nas do Apocalipse, não empreguei métodos humanos preconcebidos e destituídos de crédito e de senso que se denotam em tantas obras congêneres. A ninguém consultei sôbre como devia ou não interpretar as profecias do grande livro. Tão pouco segui a linha de interpretação de quaisquer intérpretes antigos ou modernos. Nem mesmo levei em conta meus próprios conceitos ao dar o cunho interpretativo que dei. Se em tão magna obra seguisse qualquer orientação humana, mesmo minha, teria sido desleal à Revelação e ao Revelador; teria ofendido a santa verdade e sido por demais imprudente ao tratar com tão grande mensagem inspirada. Tive mêdo de violar a Palavra de Deus que declara: “Sabendo primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular

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interpretação. 1 Portanto, creio ter seguido o rumo de interpretação orientado pela lógica e pelas Sagradas Escrituras, que é aquela dada pela própria História, dos fatos que sucederam e cumpriram com irrecusável exatidão as profecias. Sim, somente a História que cumpre as profecias é o seu verdadeiro, único e legítimo intérprete. Creio, assim, não ter sido desleal à acertada lógica de interpretação profética — que é a união evidente da profecia e dos fatos históricos seus intérpretes, pois não me arrisquei ao infalível desagrado do Revelador do tão maravilhoso livro de Daniel. Findando, imploro ao Creador, o Grande Autor da Revelação, que derrame suas copiosas bênçãos a todos quantos lerem e estudarem êste livro; que os ilumine ao considerarem as suas grandes profecias, para que eles possam fruir o máximo para a vida vitoriosa do presente; nêle encontrar a senda real que conduz a um futuro glorioso e a uma eternidade feliz. Que os próprios ateus e críticos mais acérrimos possam ser amplamente abençoados ao examinarem este livro.

1 II S. Pedro 1:20.

A. S. MELLO

ARACELI S. MELLO

PREFÁCIO

É com a mais viva emoção que abrimos ao estudo a grande obra sacra inspirada — o livro de Daniel. É verdadeiramente um privilégio todo especial estudar o grande livro e conhecer profundamente o seu maravilhoso conteúdo histórico e profético. Comparamos a notável obra à “sarsa ardente” do deserto do Sinai na experiência de Moisés. Um santo fogo abrazador envolvia a memóravel sarsa sem consumí-

la. A Moisés, que dela se aproximava curioso pelo inédito espetáculo e para observá-lo de perto, foi incontinentemente ordenado a deter-se

e solenemente advertido: “Moisés, Moisés

não te chegues para cá;

tira os sapatos de teus pés, porque o lugar em que tú estás é terra santa”. 1 Que rigorosa e impressionante advertência! A presença da Majestade celestial em meio à sarsa em chamas emprestava ao local tôda a solenidade e santidade, pelo que o experiente pastor de Midiã devia descalçar-se e demonstrar a mais santa reverência antes de avançar mais um só passo. Assim é o livro de Daniel — uma “sarsa ardente”, abrazadora, em meio a qual faz-Se presente o Todo-poderoso do universo. Seja quem fôr, pois, que deste livro lance mão — quer para estudá-lo ou pregá-lo — deve descalçar-se de todo o preconceito, de tôda a suspeita, de todo o escrúpulo, e manifestar o mais profundo sentimento de respeito e reverência, já pela presença do Revelador no livro, já pela mensagem por Êle revelada. Ê inadmissível que um

convicto cristão se aproxime dêste tão santo livro com indiferença ou sem o manifesto espírito de respeito e submissão Aquele que é a pessoa central de sua revelação e sem a firme decisão de acatar e viver a sua poderosa mensagem inspirada. As profecias de Daniel requerem especial atenção, pois destinam-se especialmente ao tempo em que vivemos. Gabriel, o anjo assistente do profeta, declarou enfaticamente que o livro de Daniel estaria selado até “o fim do tempo” — que é a nossa atual geração

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— quando então seria aberto à consideração. “Os sábios entenderão” declarou o Santo anjo. 1 Assim as profecias de Daniel demandam hoje absoluta atenção e diligente estudo por parte de todos os cristãos. Isto fortificá-los-á e elevá-los-á a uma inapreciável experiência nova com relação à fé e a verdade revelada de Deus. Tôdas as profecias de Daniel ligadas ao nosso tempo findam com

o estabelecimento do reino de Deus e a volta de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo que devem ser examinadas com todo o interêsse e respeito, vividas para sermos capacitados à categoria de verdadeiros cristãos nêste derradeiro “tempo do fim”, e estarmos prontos para recebermos do supremo Rei as boas vindas ao eterno reino que Êle virá inaugurar.

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Quando falamos em profecias, um dos principais fatores de importância que surge — é a pessoa do profeta. Mas, um profeta não é profeta porque desejou sê-lo ou porque fez-se profeta por si mesmo.

O profeta é o indivíduo a quem Deus chama e o investe no encargo de

profeta, para exercer o ofício de profeta. Em nenhum caso um profeta de Deus investira-se nêste honroso encargo por sua conta própria. Não é qualquer homem que está categorizado a ser um profeta de Deus. Qualquer um deles não escolhera Deus para tão alta função de profeta. O homem dá preferência de Deus para ser Seu honrado profeta, deve ser distinto, possuir qualidades que o habilitem a êste tão sagrado ministério. Será um servo leal de Deus — fiel em todos os sentidos aos reclamos de Sua divina vontade como exarada em sua santa lei; um homem humilde, despretencioso, zeloso da honra de Deus, de Sua causa e de Seu povo; um fervoroso porta-voz de Deus desembaraçado deste mundo, de absoluta confiança, de fervente fé e de muita oração. Enfim, um homem que consinta em que Deus o dirija na obra para a qual é chamado e empossado. Assim foram os profetas de Israel na antiguidade — homens de absoluta honradez e elevada consagração. Assim foi de modo particular e glorioso o profeta cujo importante livro estamos considerando — Daniel, o honrado de Deus. Outrossim, o profeta não prevê coisa alguma. Tudo o que êle propala oralmente ou por escrito, em virtude de sua investidura como profeta — lhe é antecipadamente mostrado ou revelado por Deus. Como profeta êle é tão somente um porta-voz de Deus. É um mensageiro de Deus portador de uma mensagem de poder — de

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1 Daniel 12:4-10.

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aprovação, de repreensão, de conselho ou de previsão do futuro bom ou mau. Uma importante pergunta: Como é transmitida ao profeta a revelação de Deus? Sôbre isto veja-se: 2.ª Parte, título: Uma Visão num Sonho Noturno. Portanto, as profecias das Sagradas Escrituras, procedentes da pena dos profetas de Deus, as únicas inspiradas e verdadeiras, não podem ser interpretadas segundo o molde do pensamento humano. Exclusivamente os eventos históricos delas comprobatórios — são os seus legítimos interpretes. “A profecia” disse Arturo T. Pierson, “representa uma fechadura, para a qual só uma história subsequente pôde proporcionar a chave”. Será uma preterição muito absurda do indivíduo, seja quem ele possa ser, arrogar-se intérprete da revelação profética de Deus. O autor desta dissertação sôbre o livro de Daniel, não interpretou em absoluto nenhuma de suas providenciais profecias. O que êle fez foi tão somente reunir os seus legítimos intérpretes — os testemunhos históricos evidentes, colocando-os lado a lado com elas. Disto resultou êste livro que, injustamente, trás o nome de quem o escreveu — quando o seu legítimo autor é a História que cumpriu rigorosa e gloriosamente todas as profecias de Daniel mesmo em seus mínimos e impressionantes detalhes. O único mérito que o escritor desta obra requereu para si e que recompensou mais que tudo, seu hercúleo esforço, foi o prazer de vê-la sair do prelo para as mãos de milhares de leitores e sinceros pesquizadores da verdade profética de Deus. A profecia nada mais é, segundo a palavra de São Pedro, do que “uma luz que alumia em lugar escuro”. 1 Todo o futuro do mundo tem sido iluminado ao povo de Deus pela palavra da profecia. Seu povo que tem marchado através dos séculos em demanda de Seu reino de paz e perfeição, não tem andado às cégas. Todo o futuro lhe tem sido claro, e isto lhe revelou Deus pelas profecias infalíveis, para que se precavesse em face de seus inimigos de emboscadas ao longo do caminho. Todos os movimentos dos grandes impérios e das nações da terra foram e são controlados por Deus e revelados a seu escolhido povo que em meio às tão variadas mutações da História prossegue para o supremo alvo — o glorioso reino do Senhor. Tudo, porém, no que respeita aos marcos principais da História foi traçado por Deus e comunicado aos profetas Seus servos, principalmente a Daniel e São João. Os dois grandes livros, Daniel e Apocalipse, são os que

1 II S. Pedro 1:19.

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enfeixam as principais profecias inspiradas, cujo cumprimento histórico tem sido incontestável e irrefutável. Resumindo, dizemos: À luz da palavra profética marcha a História e com ela marcha o Povo de Deus.

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Há nas Sagradas Escrituras dois livros de suma importância; o de Daniel no Velho Testamento e o do Apocalipse no Novo Testamento. Não queremos dizer que os outros livros dos dois Testamentos não são importantes. O que dizemos é que êstes dois livros salientam-se mais que todos — pelas mensagens proféticas que contêm e pelo tempo em que foram reveladas. Posto que o Apocalipse encerre uma mensagem profética que enche tôda a era cristã — de primeiro ao segundo advento de Cristo — a mensagem do livro de Daniel enche duas eras — antes de Cristo desde Babilônia e depois de Cristo até ao Seu segundo advento. Todavia, a importância do livro de Daniel jaz no fato de ser sua revelação especialmente para a atual geração — pois foi selada até ao presente tempo. 1 “Acham-se sôbre nós os perigos dos derradeiros dias, e cumpre-nos vigiar e orar, estudar e dar ouvidos às lições que nos são dadas nos livros de Daniel e do Apocalipse”. 2 Que gloriosa luz deu-nos Deus para este final da história humana! Anda na escuridão apenas aquele que o quer! “Há necessidade urgente e premente de uma acurada investigação das profecias de Daniel e do Apocalipse, afim de saber- se com precisão o que Deus requer dos homens, mòrmente dos cristãos, que esperam ser súditos do futuro reino de Cristo. Os dois livros podem ser considerados um só. Ambos se interpretam mutuamente. Os detalhes que possam ser obscuros no livro de Daniel são muitas vêzes esclarecidos por comparação no livro do Apocalipse. O livro de Daniel tem seu lugar evidente no livro do Apocalipse e neste aparece êle claramente aberto e descerrada a sua mensagem outrora selada. As profecias do Apocalipse são o complemento das profecias de Daniel. Ambos os livros se autentificam. Se as visões de Daniel houvessem sido estudadas com interesse o povo entenderia melhor as de S. João. Ambos os livros — Daniel e Apocalipse — dizem o que é a verdade que o mundo tanto carece no presente século. Os perigos dêstes finais dias requerem um

1 Daniel 12:4.

2 Testemunhos Seletos, ed. mundial, E. G. White, Vol. II página 410.

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eficaz exame de ambos os livros e uma aceitação sincera da mensagem una que encerra. Não há outro meio de escapar aos rigores da iminente crise que se aproxima inexorável. Aqueles que neste solene tempo estudarem as profecias dêstes dois profetas, receberão grande luz de Deus. A cristalina verdade lhes brilhará claramente como o sol de meio dia. “Quando os livros de Daniel e Apocalipse forem bem compreendidos, os crentes terão uma experiência religiosa inteiramente diferente. Ser-lhes-ão dados tais vislumbres das portas abertas do Céu que o coração e mente se impressionarão com o caráter que todos devem desenvolver afim de alcançar a bem- aventurança que deve ser a recompensa dos puros de coração”. 1 Porém, por culpa dos mestres religiosos em declarar que os livros de Daniel e Apocalipse são livros fechados, obscuros e incompreensíveis mistérios, o povo tem com grande perda espiritual se afastado deles. Êsses falsos líderes de religião estão mais capacitados a receber e abraçar com entusiasmo as suposições dos geólogos ateus modernos que contrariem abertamente o primeiro capítulo do Gênesis, do que as cristalinas verdades proféticas de Daniel e Apocalipse e de outras porções das Sagradas Escrituras. Grandes têem sido os preconceitos dos líderes do cristianismo nominal contra os maravilhosos livros de Daniel e do Apocalipse. A verdadeira razão de tais preconceitos no fato de a mensagem dos aludidos livros não se prestar à ambiciosa política religiosa dêsses pretensos guias espirituais. Já os judeus de ontem e de hoje é por seus malsãos preconceitos, recusaram o livro de Daniel porque as suas profecias apontavam “tão insofismável para o tempo de vinda do Messias, e tão diretamente lhes predizia Sua morte, que eles descoroçoavam o estudo dessa profecia, e finalmente os rabís pronunciaram a maldição sôbre todos os que tentassem uma contagem do tempo. Em sua cegueira e impenitência, o povo de Israel tem permanecido, por mil e novecentos anos, indiferente ao misericordioso oferecimento da salvação, desprecupado das bênçãos do evangelho, como solene e terrível advertência do perigo de rejeitar a luz do Céu”. “Deus confiou estas profecias aos dirigentes judeus; estariam sem desculpas si não soubessem nem declarassem ao povo que a vinda do Messias estava às portas. Sua ignorância era o resultado da pecaminosa negligência”. “Absortos em suas ambiciosas lutas para conseguir posição e poderio entre os homens, perderam de

1 Testemunhos para Ministros E. G. White, pág. 114.

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vista as honras divinas que lhes eram oferecidas pelo Rei do céu”. 1 E, êsse cristianismo que por aí vai, despido da justiça de Cristo e da alma da religião cristã, está fadado, por sua absoluta culpabilidade em negligenciar e relegar as profecias de Daniel e do Apocalipse, a receber com aqueles o prêmio que o céu tem reservado aos que menosprezam a inspiração de Deus para o bem e salvação da humanidade.

* O TEMA DO LIVRO DE DANIEL

É um privilégio quasi sobrenatural estudar o grande livro, suas famosas profecias tratam dum conflito multi-secular entre a vontade

de Deus e a vontade do homem; entre a verdade do céu revelada e o tradicionalismo doentio dos apóstatas; entre o supremo Governador do universo e os frágeis governadores do mundo. No centro dêste conflito, segundo as profecias de Daniel, está o povo de Deus — alvo de hostilidades das forças do mal; civis e eclesiásticas. Durante o domínio dos quatro grandes impérios e a divisão de Roma até ao presente, a igreja de Deus, de acordo às profecias de Daniel e os fatos comprobatórios, foi visada pelos opressores — tanto no que respeita ao velho como ao novo Israel. Os referidos poderes a oprimiram e a dizimaram; encarceraram seus componentes e os quebraram. Por conseguinte, o tema do livro de Daniel não visou nem visa simplesmente indicar o levantamento e queda de poderosos reinos e nações, mas demonstrar como Deus encerra o orgulho do homem e joga a glória no pó — como Deus lança abaixo o poderoso e despótico governador e estabelece outro em seu lugar; como Êle controla os poderes políticos e eclesiásticos da terra de modo a facilitar a marcha ascendente vitoriosa de Seu povo a despeito de sérios obstáculos, oposições e incontáveis perseguições. É dentro dêste tremendo conflito que devemos estudar o livro de Daniel. Se todos os maus críticos o estudassem e o considerassem dentro dêste escopo, seguramente abjurariam suas oposições e teriam uma nova visão da grande revelação de Deus aos homens através de Seu grande

e honrado profeta Daniel. Dêste modo o tema geral do livro de Daniel, em outras palavras,

é demonstrar aos poderosos da terra que êles são meros “nadas’’ e que Deus é o verdadeiro Soberano — que os põe no governo do

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1 O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 378, 312.

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mundo e das nações e dêle os depõe, afim de que seu escolhido povo possa cumprir livre e desembaraçadamente a sua missão enquanto marcha vitorioso em demanda do reino eterno.

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A mensagem básica, fundamental do livro de Daniel é a intervenção de Deus no domínio do homem no mundo. O clímax da mensagem do livro é o estabelecimento do reino de Deus na terra. As profecias dos capítulos dois, sete e oito que historiam o domínio do homem, culminam com a futura vinda do glorioso reino. A segunda vinda de Cristo para ajuste com os poderes constituídos é o desfecho anunciado sôbre a má administração do homem nos negócios da terra, que se opõem aos planos e intentos de Deus. A história do mundo revela uma contínua anarquia resultante da dominação do homem e seu desqualificado despotismo arrogante e destruidor. A intervenção de Deus, clara nas profecias de Daniel, porá um dramático fim ao abuso e exterminará totalmente um domínio que se tem demonstrado falho e prejudicial à civilização humana. Fogo, rezam as profecias, será o remédio de Deus para estirpar o mal crônico da arrogância e da desmedida opressão. O dono do mundo virá governar aqui, pois só Êle sabe governar. O homem insiste em governar sem saber governar. E, até agora, êle próprio tem provado por seu govêrno na terra, que na verdade não sabe dirigir os destinos da civilização. Seu govêrno findará para dar lugar ao govêrno de Deus.

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O Livro de Daniel contém uma mensagem especial para o tempo do profeta. A vida pessoal de Daniel — como primeiro ministro dum império mundial — já constituía uma mensagem de Deus para o seu tempo, mormente para Nabucodonosor, rei de Babilônia, e sua côrte. Os quatro primeiros capítulos de seu livro encerraram uma poderosa mensagem sob vários aspectos dirigida ao rei Nabucodonosor e seu reino. Cada um dêstes capítulos contém uma especial mensagem de Deus a Babilônia e seu soberano. No primeiro capitulo vemos quão estupendo fôra que o próprio monarca tenha proclamado a altas vozes a superioridade intelectual de Daniel e seus três companheiros — servos do Deus de Israel — no exame final da universidade da côrte. Foi uma fenomenal mensagem apelativa ao soberano relativa à supremacia do Deus do céu, o Deus de Israel.

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O capítulo dois enfeicha talvez a mais poderosa mensagem de

Deus diretamente concedida ao rei Nabucodonosor em um sonho inspirado. A grandeza de seu reino e sua queda ficaram claras na interpretação de Daniel. Foi revelado aquele monarca que Deus é quem empossa e depõe os governantes das nações estabelece e remove os reinos. Exemplo frizante disso temos nas numerosas nações e povos que desapareceram para sempre na história, e isto por determinação do Conselho de Deus segundo profecias muito evidentes de Isaías, Jeremias, Ezequiel e outros profetas de Deus. O capítulo três compreende uma visão do próprio Filho de Deus, em pleno forno de fogo na libertação dos três hebreus injustamente sentenciados. Sua aparição visou convencer o rei Nabucodonosor de Seu poder e certificá-lo da inutilidade em batalhar contra a causa do céu esposada e propagada na vida e obras de Seus representantes em

sua corte real.

O capítulo quatro relata a mais direta ação de Deus contra

Nabucodonosor, visando convertê-lo de uma vez para sempre. O soberano reconheceu afinal a mão de Deus sobre si, sua misericórdia em procurar salvá-lo ainda que dum modo dramático e tremendo.

O capitulo cinco refere a mensagem do céu ao último rei de

Babilônia — Belshazzar. Foi uma mensagem de juízo e condenação. Na interpretação de Daniel ficou assentado que Deus deu o império de Babilônia aos medos e persas, fato que mais uma vez demonstra que Deus exerce o controle das nações. Assim os cinco primeiros

capítulos do livro de Daniel encerram a mensagem especial de Deus para o seu tempo no que respeita a Babilônia e seus monarcas.

O capítulo seis contém a mensagem de Deus no que concerne à

Medo-Pérsia de Dario, o Medo. Uma mensagem de poder que revelou ao monarca e seus cortesões o pêso do caráter dum homem que representa a Deus na terra. O livramento de Daniel na cova dos leões, como antes o dos três jovens hebreus na fornalha de Nabucodonozor, foi a mais poderosa mensagem de Deus a Dario, sua corte e seu inteiro reino que foi notificado do espetacular livramento.

O capítulo dez contém a mensagem de Deus a Ciro, relativa à

luta renhida que se travou na Judéia ao tempo da reconstrução do templo pelos cativos judeus libertos. Ciro pôde ver a mão auxiliadora de Deus na proteção de Seu povo, e nada mais teve a resolver senão ceder diante da influência do Excelso Deus. Assim os seis primeiros capítulos e mais o décimo, enfeixam a mensagem do livro de Daniel para o seu tempo — que revelou a

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supremacia de Deus sôbre todos os poderes e inclinou os reis a reconhecerem-nO como o Supremo Monarca do universo.

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O livro de Daniel contém mensagens especiais para os últimos

dias. Sete profecias há no referido livro relativas ao povo de Deus do derradeiro final da história do mundo. A primeira é a abertura do

livro de Daniel, o estudo de suas profecias, principalmente a do versículo quatorze do capítulo oitavo, que resultaria, como resultou, no grande movimento religioso do século dezenove — tal como anunciado por São João no décimo capítulo do Apocalipse. 1

A segunda — é a restauração do evangelho desde o ano de 1844

ou desde o final das duas mil e trezentas tardes e manhãs, segundo o capítulo oito versículo quatorze. Uma gigantesca obra de restauração final do evangelho da graça pela apostasia; um derradeiro convite evangélico da graça antes do fechamento da sua porta; um extraordinário movimento missionário mundial do povo de Deus apontado também nas profecias do Apocalipse, capítulo dez, onze, doze, quatorze e dezoito.

A terceira é a purificação do santuário celestial ou o juízo de

investigação, desde o ano de 1844 ao término da obra da graça, que

envolveria apenas o povo de Deus como o envolve, e cujo objetivo, é perdoá-lo, remover seus pecados do santuário e conceder-lhe “sentença favorável” pelo Supremo Juiz em face da obra meditória de Cristo. 2

A quarta — é a proteção do Senhor e Seus escolhidos no tempo

da cruel angústia que se seguirá ao encerrar-se a graça redentora e a

intercessão de Cristo por êles diante de Seu Pai, o Juiz Supremo. 3 Os santos estarão garantidos na tempestade.

A quinta — é o segundo advento de Cristo para libertar Seu povo

e levá-lo para o glorioso reino, acontecimento futuro também

anunciado pelos profetas, por Cristo mesmo pessoalmente e pelos apóstolos, mormente por São João nas profecias do Apocalipse. 4

A sexta — são duas ressurreições simultâneas especiais — dos

que morreram na fé da terceira mensagem angélica e dos que

1 Daniel 12:4.

2 Daniel 8:14; 7:9-10; 13-14, 22.

3 Daniel 12:1.

4 Daniel 12:1.

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crucificaram Jesus, aquela para a vida eterna e esta para vergonha e desprêso eterno. 1 A sétima — é a ressurreição dos santos de todos os séculos para o novo e eterno reino, incluso Daniel, que com êles estará na sua “côrte no fim dos dias”. 2 Depois dêstes setuplos acontecimentos, a terra estará no seu glorioso período de paz imperturbável e passando ela a ser a morada perpétua da divindade — onde a comunhão com o Pai celeste e o maravilhoso Salvador será gozada pelos remidos através dos infindáveis séculos da eternidade.

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O livro de Daniel pode ser chamado — um manual de história e

profecia. A profecia predita é uma prévia história e a história é a profecia predita passando em revista. As quatro linhas de profecias do livro de Daniel — capítulo dois, sete, oito e dez — são um breve

esboço da história do mundo desde Babilônia ao fim do tempo. Cada uma destas linhas alcançará o seu clímax quando o Deus do céu estabelecer o Seu reino que jamais será destruído.

As profecias de Daniel constituem uma divina ponte construída sôbre o abismo dos séculos até às iluminadas praias da eternidade. Uma ponte pela qual, aqueles que como Daniel propõem em seus corações amar e servir a Deus, possam transpô-la pela fé — da incerteza e aflição da vida presente à paz e segurança da vida futura. As maiores mensagens do livro de Daniel são o primeiro e o segundo adventos de Cristo e o estabelecimento do reino de Deus.

É interessante notarmos o emprego no livro de Daniel, pela

Revelação, para representar império, nações e indivíduos, — de símbolos como metais vários, animais diversos, chifres, árvore e um Homem vestido de linho. Foram também assentados quatro períodos proféticos: Um tempo, dois tempos e metade de um tempo; duas mil e trezentas tardes e manhãs; mil duzentos e noventa dias e mil trezentos e trinta e cinco dias. Inúmeros indivíduos tiveram o seu papel marcado pela Revelação do livro de Daniel sem que fôssem simbolizados ou nominalmente citados.

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1 Daniel 12:2.

2 Daniel 7:27; 12:13.

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O livro de Daniel compreende duas distintas seções: A histórica,

capítulos um a seis, e profética, capítulos sete a doze. A seção histórica, que é a primeira do livro, pode ser considerada como um prefácio da sessão profética. Com exceção do

sexto capítulo, os cinco primeiros referem a dois exclusivos monarcas babilônios: Nabucodonosor e Belshazzar. Os quatro primeiros capítulos tratam direta e exclusivamente ao rei Nabucodonosor em suas relações com o Deus de Israel através de Daniel e seus três companheiros. O quinto historia o trágico fim do império de Babilônia e de seu último soberano sob o juízo divino. O sexto capítulo menciona um só rei — Dario, o Medo, em suas relações com o Deus de Israel através de Daniel. Cada capítulo desta seção histórica encerra uma lição básica do céu dirigida ao monarca do reino mundial dominante no tempo de sua mensagem, bem como aos governantes das nações de todos os tempos — de que a supremacia pertence a Deus e não ao homem. Revela esta seção ainda, principalmente três dramáticos espetáculos em que estiveram em perigo de vida os servos de Deus Seus representantes na côrte do mundo de então. O céu, porém, estava a postos e interviu nos momentos precisos para livrá-los de perecerem. Entretanto, os reis que correspondem a esta seção foram ricamente abençoados pela presença dos embaixadores de Deus em suas cortes, e os próprios negócios de seus reinos prosperaram pela sabedoria com que cumpriram a missão de que foram incumbidos por Deus.

A seção profética do livro salienta-se por tríplice resumo: 1)

Despotismo político opressivo; 2) despotismo eclesiástico apóstata; 3) religião verdadeira triunfante. As profecias desta seção subordinam-

se a três visões de Daniel (caps. 7, 8, 10), e tratam de poderosos impérios, de grandes e influentes nações, dum arrogante poder religioso intolerante e do propósito de Deus com Seu povo. O desfecho da crise da história é assinalado pela intervenção de Cristo no mundo como solução única para os incontáveis e insolúveis problemas da terra que afligem e desesperam as nações e os povos.

O quadro geral desta seção é verdadeiramente sensacional no

que respeita a seu simbolismo. No que se relaciona aos grandes impérios, dum lado são representados por terríveis feras insaciáveis

de sangue, enquanto por outro lado por animais pacíficos atuando como indomáveis e bravios. O poder religioso apóstata, representado

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num “chifre pequeno” com olhos e bôca, é o que mais chama a atenção por suas palavras altivas e seu aberto levante e audácia contra, o céu, enquanto reduz a nada o poder dos soberanos da terra sobre os quais se impõe inexorável. Todavia, em meio ao dantesco espetáculo das forças do mal em ação, deparamos as profecias que tratam do plano de Deus de restauração de tudo e da marcha vitoriosa de Seu povo por entre os séculos em meio a um dilúvio de oposições e um inferno de perseguições. Vê-se claramente a mão do Onipotente no leme da nau do mundo conduzindo Seus planos a bons termos e guiando Seu povo ao porto seguro e glorioso da eternidade, a despeito dos tantos recifes do caminho. Damos a seguir um esboço rápido das duas seções do livro de Daniel, em que aparecem os títulos chaves de cada capitulo, tais como expostos em tôda a dissertação. Não afirmamos que estes títulos correspondam à inteira matéria de cada capítulo; porém, como o fizemos, julgamos ter escolhido os que mais se aproximam da essência do mais importante conteúdo histórico ou profético de cada capítulo:

Capitulo primeiro: — Embaixadores de Deus na corte de Babilônia. Capitulo segundo: — O impressionante sonho dos impérios. Capítulo terceiro: — Uma poderosa lição de liberdade de consciência. Capítulo quarto: — O seguro resultado na procrastinação. Capítulo quinto: — O banquete fatal de Babilônia. Capítulo sexto: — Vitória na cova dos leões. Capítulo sétimo: — O drama das opressões políticas e religiosas. Capítulo oitavo: — O santuário celestial e o Augusto Tribunal de Deus. Capítulo nono: — O tempo profético do advento do Messias. Capítulo décimo: — A intervenção de Cristo na côrte persa. Capítulo undécimo: — Luta de morte pela supremacia política. Capítulo duodécimo: — O desenlace da crise da História.

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É importante considerarmos em rápidas pinceladas — o mundo nos dias de Daniel. É interessante atentarmos em primeiro lugar que,

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ao atingir Daniel a idade de doze anos (612 a.C.) o império assírio, outróra poderoso no mundo, caíra nas mãos de Nabopolasar, seu forte vassalo governador de Babilônia. O Egito, que antes da Assíria era a potência suprema na África e na Ásia, vira na queda desta potência que o vassalara uma nova chance de reabilitar-se à sua primitiva supremacia. Mas não teve mais forças para erguer-se e todo

o seu empenho nêste sentido foi em vão diante do nôvo poder — de

Babilônia sob os caldeus — que se levantava para dominar a terra inteira. A êste tempo três novos poderes cresciam e esperavam na fila da História a sua vez de dominação mundial — Medo-Persa, Grécia e Roma. Porém, o que mais importante se nos apresenta quanto à época

de Daniel, é o império de Babilônia, no qual êle viveu durante 70 anos, em cuja côrte foi primeiro ministro enquanto embaixador do Rei do universo. É de importância apreciarmos a origem do império de Babilônia, no Capítulo II, titulo: A Origem do Império de Babilônia. Veja-se também, no mesmo Capítulo, o título: Nabucodonosor Rei do Mundo. Estava, pois, o mundo sob um só poderoso soberano e uma só vontade — o rei Nabucodonosor. Uma absoluta vaidade caracterisou

o reinado mundial dêste potentado. O povo de Deus jazia fora de sua

terra, em cativeiro no Oriente. Dois homens foram especialmente tomados por Deus naquela solene época histórica enquanto o povo do Senhor jazia em cativeiro: Nabucodonosor e Daniel. O primeiro para assegurar a paz na terra e o segundo para influenciar no primeiro toda a simpatia, benevolência e proteção ao cativo povo de Deus. Assim era o mundo nos dias de Daniel e da revelação da extraordinária mensagem de seu livro.

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Lamentàvelmente há várias adições apócrifas no livro de Daniel. Há em tôda a Bíblia sete livros essencialmente apócrifos. Foram introduzidos pela primeira vez na “Versão dos Setenta”. São êles; Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Profecia de Baruque, I Macabeus, II Macabeus e adições no livro de Ester. Passaram depois a figurar em outras versões incluso a Vulgata ou Católica — donde a versão brasileira do Padre Matos Soares. Êstes livros apresentam-se sem o respectivo autor, pelo que atestam sua origem, apócrifa, o que não sucederia se fôssem inspirados do céu. Além de tudo, falta nêles

o elemento profético. Josefo sustém (Ap. 1,8) que o ensino exato, fiel e preciso dos profetas foi interrompido depois do fêcho do Velho

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Testamento. Desde Malaquias (cêrca de 400 a.C.) até João Batista, nenhum profeta foi levantado por Deus. O próprio primeiro livro dos Macabeus fala na ausência de profetas. 1 Também a leitura de tais livros já indica não terem sido inspirados, havendo até porções que contradizem as mensagens dos livros autênticos e inspirados. É digno de menção que nenhum dos profetas verdadeiros fez qualquer alusão dos livros apócrifos. Cristo jamais se referiu a êles, e mesmo os apóstolos e a igreja apostólica jamais importaram-se com êles. O canon hebreu que é a coletânia dos livros inspirados através os profetas de Israel, não contém os apócrifos citados. Justino, o mártir, Origenes, Jerônimo e S. Agostinho aprovaram o cânon judáico sem os apócrifos. Wiclife afirmou não terem “autoridade de credo” e Lutero declarou: “não serem iguais às Escrituras”. A Assembléia de Teólogos de Westminster em 1643, excluiu os livros apócrifos. Em 1643, o Dr. Lightfoot na Câmara dos Comuns, referiu- se aos “desprezíveis apócrifos”, como “remendos de invenção humana”. Para termos uma idéia da falsidade destes apócrifos:

Tobias 6:6-8, autoriza o charlatanismo; II Macabeus 12:44-45, recomenda ofertas e orações pelos pecados dos mortos; Judite 9:9-10, especialmente, propugna e justifica o engano; Sabedoria 8:19-20, ensina a reencarnação. E há outras contraditórias declarações. O valor dos apócrifos, portanto, como fonte de verdade e edificação espiritual, é nulo, e devem ser eles rejeitados como nocivos à fé e aos costumes do são cristianismo. O livro de Daniel foi também alvo da injuriosa bagagem de edições apócrifas. Segundo a Bíblia Católica do Padre Matos Soares — tradução da Vulgata Latina — o capítulo três contém duas adições apócrifas: A “oração de Azarias”, na fornalha ardente, e o “cântico dos três jovens”, também na fornalha ardente. O capítulo treze encerra a história de Suzana e dois velhos por ela apaixonados, bastante vergonhosa para que Daniel a inserisse em seu glorioso livro. E o capitulo quatorze e último contém duas ridículas histórias; A de Bel e a do Dragão, em que o impúdico desconhecido autor- apócrifo envolveu a Daniel, aquele santo e puro caráter, como também é envolvido na história de Suzana pelo mesmo impúdico autor ignorado que a inventou. Estas adições apócrifas ao livro de Daniel constituem franca contradição da narrativa total e original do livro do profeta. Daniel seria muito insensato para introduzir em sua belíssima obra inspirada

1 I Livro dos Macabeus cap. 4 verso 46.

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tamanhas aberrações e tolices. Nelas é bem patente o dedo do inimigo de tôda a justiça que com facilidade extrema serviu-se de apóstatas declarados para macular um santo livro como o de Daniel, do mesmo modo como o fêz com outros das Sagradas Escrituras. A eterna verdade de Cristo foi assim maculada com a presença destes espúrios escritos; foram vituperados os servos de Deus que falam em Seu nome; e foi ofendido o Espírito Santo — o Agente da inspiração de

procedência celestial. Os verdadeiros cristãos rejeitarão os apócrifos

e darão preferência às Bíblias que são isentas deles — como

prejudiciais à fé cristã. Guerra, pois, aos injuriosos apócrifos de origem meramente humana, faltos da inspiração divina e ofensivos a Deus e sua justiça.

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Seria um milagre se um livro como o de Daniel, cujas profecias são tão exatas e tão evidentemente comprovadas por irrecusáveis testemunhos históricos — fôsse isento dos ataques de Satanás.

Deveras nenhum outro livro tem sido tão atacado como êste grande livro inspirado. O inimigo do direito tem estado a postos através dos séculos para opôr-se à autenticidade e inspiração dos livros das Escrituras Sagradas, principalmente o livro de Daniel. Durante dezesseis séculos homens ímpios — filósofos pagãos e incrédulos — têm procurado derribar a sua autenticidade. Mas êle se tem demonstrado como uma bigorna sôbre a qual os martelos dos críticos

se têm despedaçado. Os líderes do judaísmo, os próprios compatriotas de Daniel,

foram os primeiros a olhar com olhos vesgos ao profeta como profeta

e a seu livro como matéria inspirada de crédito. Deram ao referido

livro um lugar inferior no Canon. Não o inscreveram na série dos grandes profetas — Isaías, Jeremias e Ezequiel — e nem mesmo entre os chamados “profetas menores”, mas o colocaram entre os

“Escritos” (Kethubins ou Hagiógrafos) — ao par com livros poéticos

e históricos. Esta atitude equivaleu ao não reconhecimento legal em

absoluto de Daniel como um profeta de importância e a seus escritos

como de valor real. Outrossim, o colocaram entre os sábios homens que, embora senhores do Dom de Profecia, não são chamados profetas nos livros que trazem os seus nomes. Assim repudiaram os rabinos a Daniel e seu livro dando-lhe apenas um lugar secundário no cânon. Uma das razões do infeliz repúdio judaico ao profeta e conseqüentemente ao teu livro, consiste na alegação de que êle, embora exercesse o dom profético, não exerceu o ofício profético de mediador entre Deus e sua nação, como os demais profetas. Outra

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razão do injusto repúdio é o alegado fato de Daniel ter vivido em palácio como primeiro ministro dum reino opressor de seu povo em cativeiro e não entre os seus compatriotas opressos. Esqueceram-se, porém, que, não fôra Daniel ali naquela corte estar como embaixador de Deus, não teriam tido seus antepassados cativos o ameno cativeiro que tiveram e muito menos um regresso seguro, em paz e com alegria, findo os 70 anos de exílio, para reconstruírem o seu lar nacional na Judéia. É, pois, injusta a atitude do judaísmo contra Daniel e seu livro, e aqui fica o protesto contra esta descabida injúria que o céu um dia vingará.

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Uma outra oposição ao livro de Daniel, mais audaz e inspiradora de maior descrédito ao seu autor e sua mensagem, é a que originou-se no terceiro século com o sofista sírio e filósofo pagão neo-platônico — Porfírio (233-304 A.D ). Os impertinentes ataques de Porfírio e dos que aplaudiram suas objeções temos a seguir:

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“Até o tempo comparativamente recente, com algumas poucas excessões, a genuinidade e autenticidade do livro de Daniel tem sido consideradas como estabelecidas, e sua autoridade canônica foi tão pouco duvidada como a de qualquer outra porção da Bíblia. Os antigos hebreus jamais duvidaram de sua autenticidade” embora lhe dessem um lugar inferior no cânon — pelo menos o equipararam aos livros históricos e poéticos. “O primeiro aberto e confesso adversário da genuinidade e autenticidade do livro de Daniel, foi Porfírio, um ferrenho adversário da fé cristã no terceiro século. Escreveu êle (aos quarenta anos de idade) quinze livros contra o cristianismo (obra intitulada — Contra os Cristãos), dos quais todos se perderam, exceto alguns fragmentos preservados por Eusébio, Jerônimo e outros. Suas objeções contra Daniel foram feitas em seu décimo-segundo livro, e tudo o que temos de tais objeções foi preservado por Jerônimo em seu comentário sôbre o livro de Daniel. Uma inteira informação, suas objeções contra os cristãos e os livros sagrados do Velho e Nôvo Testamentos, tanto quanto agora se conhece, pode ser encontrado em Lardner — Testemunhos Judaicos e Pagãos, Vol. VII, páginas 390, 470, de suas obras, edição de Londres, 1829. “De acordo a Jerônimo, portanto, Porfírio insinuou “que o livro de Daniel não foi escrito por aquele cujo nome o livro trás, mas por

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outro que viveu na Judéia no tempo de Antíoco Epifanes no segundo século a.C.; e que o livro de Daniel não prediz coisas futuras, mas relatos daquilo que já havia sucedido. Numa palavra, seja o que fôr que ele contenha do tempo de Antíoco é história verdadeira; se há alguma coisa relatada para tempos futuros é falsidade; porquanto o escritor não podia ver coisas futuras, se não que quando muito somente podia fazer algumas conjecturas sôbre elas. A êle diversos de nossos autores têm dado respostas de grande trabalho e diligência, em particular Eusébio, bispo de Cesaréia, em três volumes. Apolinarius, também, em um vasto livro, que é o 26.°, e antes deles, em parte, Methodius. Como não é meu objetivo, disse Jerônimo, “refutar as objeções do adversário, que podia requerer uma longa exposição, mas apenas explanar o profeta a nosso próprio povo, isto é os cristãos, observarei que nenhum dos profetas falou tão claramente de Cristo como Daniel, porque êle não somente predisse Sua vinda, como igualmente outros fizeram, mas também anunciou o tempo quando Êle apareceria, e menciona em sua ordem os príncipes do espaço intermediário, o número de anos e os sinais de seu aparecimento. E em virtude de Porfirio vêr que todas estas coisas se cumpriram, e não podia negar que todas elas em seu tempo já tinham passado, foi êle compelido a dizer, como disse; e devido a similitude de algumas circunstâncias, “afirmou que as coisas preditas para serem cumpridas pelo Anticristo no fim do mundo, cumpriram-se no tempo de Antíoco Epifanes. Tal espécie de oposição é um testemunho da verdade; porque tal é o plano de interpretação das palavras, que aos homens incrédulos o profeta parece não predizer coisas futuras, mas descrever coisas já passadas.” 1 Porfírio fundou-se em certos extraviados autores gregos pagãos para suster a sua inglória oposição. Suas opiniões, porém, exerceram pouca influência nos séculos subsequentes no Oriente e nenhuma no Ocidente, e o primitivo ponto de vista correto sôbre Daniel e seu livro dominou tôda a Idade Média. Cristãos e judeus, católicos e protestantes, estiveram geralmente unânimes que o livro de Daniel foi escrito durante o exílio do autor em Babilônia no sexto século a.C.

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A teoria de Porfírio jazeu dormindo a maior parte do tempo até depois da Reforma, quando foi trazida de sua obscuridade por Hugh

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1 Source Book for Bible Studentes, ed. 1927, pág. 127.

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Broughton (1549-1612) da Inglaterra. Desde então tem sido ela ventilada especialmente por Johann S. Semler (1791), Wilhelm A. Corrodi (1793), Leonhard Bertholdt (1806-1808) e outros que nada

fizeram senão repetir as declarações de Porfírio, o assaltante número um do cristianismo no terceiro século. Os que propagam esta deletéria teoria de Porfírio, o fazem sem conhecimento real de sua origem e de seu verdadeiro objetivo, que era simplesmente depreciar

o cristianismo. Ninguém, pretendem os maus críticos, exceto um compatriota de

Antíoco IV Epifanes, rei da Síria, no segundo século, seria capaz de referir com tal exatidão os eventos daquele tempo. Portanto, o escritor do livro de Daniel, afirmam êles — como Porfírio — deve evidentemente ter sido um erudito, ou um personagem cujo coração encheu-se com o santo desejo por comunicar fôrça e valor a seu povo naquele preciso tempo de guerra e perseguição do período Macabeu. Êle deve, afirmam, ter sido uma figura saliente que tomou o nome de Daniel como seu pseudônimo, para dar maior pêso às suas exortações

e predições. Mas, é bastante estranho que o incógnito autor, assim

chamado, escrevesse o livro de Daniel como exortação aos heróicos Macabeus perseguidos e em armas contra a Síria e nada se referi-se a essa guerra, ao esforço de seu povo em aflição e jamais referisse no livro o nome Macabeu! Para fortalecer o seu ponto de vista, os críticos lançaram mão do

fato de não ser Daniel mencionado entre os profetas, no Cânon judeu,

e nem na importante lista de homens do livro de Eclesiásticus

(Sirach), escrito cerca de 190-170 a.C. A conclusão a que chegaram é

que o livro de Daniel deve ter sido escrito numa data posterior, provàvelmente cerca de 165 a.C. Hoje grande número de expositores aceitam a posterior ridícula data da redação do livro de Daniel.

Aliás, não aceitam o sexto século como tempo em que o autor do livro

o escreveu em Babilônia, mas sim o segundo século, ao tempo de Antíoco Epifanes.

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Dois pontos essenciais há levantados pelos discípulos de Porfírio em tôrno de sua teoria sôbre o livro de Daniel:

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1. Desde que certas profecias apontam Antíoco IV Epifanes da Síria (175-164), e desde que, de acôrdo às suas concepções, a maioria das profecias — pelo menos as que demonstraram um acurado cumprimento — foram escritas depois dos eventos descritos terem ocorrido, assim as profecias de Daniel, conforme estas suas

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preterições, devem ser datadas do tempo seguinte ao reinado de Antíoco Epifanes e não de antes de seu tempo. 2. Desde que, a seção histórica de Daniel lembra certos eventos que discordam dos fatos históricos conhecidos nas fontes em vigor, estas discordâncias — asseveram os críticos — podem ser justificadas simplesmente pelo fato de o autor do livro de Daniel ter estado distante dos eventos, tanto pelo espaço como pelo tempo, e também pelo limitado conhecimento que possuía do que sucedera nos sétimo e oitavo séculos a.C., 400 anos antes.

Replicamos: — O primeiro argumento opositor, é destituído de valor para aquêle que crê que o inspirado profeta fêz acuradas e importantes predições concernentes ao curso da História, desde Babilônia aos fins dos tempos. O segundo argumento é verídico no que afirma que Daniel descreveu alguns eventos que mesmo hoje não pedem ser verificados por meio das antigas fontes de material disponível. Um de tais eventos é a enfermidade de Nabucodonosor, que não é mencionada em qualquer antigo relato existente e que os críticos têm-na como objeção ao livro de Daniel. A ausência de relatórios seculares para uma temporária incapacidade do maior rei do império neo-babilônico não é um fenômeno estranho em um tempo quando os relatórios do trôno continham somente narrativas louváveis. Também é enigmático Dario, o Medo, cujo lugar na História não tem sido estabelecido por fatores de confiança não bíblica. Veja-se Capítulo IV, título: “E Dario, o Medo, ocupou o reino”. Outras chamadas dificuldades históricas mencionadas no livro de Daniel foram já solvidas pelo incremento do conhecimento provido pela arqueologia moderna, como damos a seguir:

1. A suposta discrepância cronológica entre Daniel 1:1 e Jeremias 25:1, — o primeiro texto dando conta que Nabucodonosor, como rei de Babilônia, tomou Jerusalém no terceiro ano de Joaquim;

e o segundo definindo que o primeiro ano de Nabucodonosor como

rei de Babilônia era o quarto ano de Joaquim. Porém, os conhecimentos e as descobertas arqueológicas vieram comprovar em

solução a êste problema, — 1) que Nabucodonosor era co-regente com seu pai Nabopolasar, tendo o título de rei sem reinar como soberano oficial único no trono; — 2) que de acordo à cronologia do trono de Babilônia, não era tomada em conta no cômputo do reinado

o ano da ascenção oficial de seus monarcas. Daí o ano da ascenção

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de Nabucodonosor, que foi o terceiro ano de Joaquim da Judéia, não ter sido computado nos anos de seu reinado oficial como sucessor de seu pai Nabopolasar, sendo o seu primeiro ano, conforme a cronologia do trono e o relato do profeta Jeremias, em verdade o quarto ano de Joaquim.

2. Nabucodonosor é apresentado em Daniel como o grande

edificador de Babilônia, 1 , ao passo que esta honra havia sido dada pelos clássicos gregos à rainha Semírames. Mas a arqueologia nestes últimos 100 anos tem mudado inteiramente o quadro pintado pelos

clássicos escritores e tem corroborado com o relato do livro de Daniel que credita a Nabucodonosor a honra de edificador e embelezador da grande cidade da Caldéia. Semírames, chamada Sammu-ramat em inscrições cuneiformes, foi agora descoberta como uma rainha mãe da Assíria, regente de seu filho menor Adad-nirari III, e não como uma soberana de Babilônia como pretendem as fontes clássicas. As inscrições demonstraram que ela jamais estêve ligada com alguma atividade de edificação em Babilônia. De outro lado, numerosas inscrições de Nabucodonosor provam que êle tornou-se o

criador de uma nova Babilônia pela reedificação de palácios, templos e de novos edifícios e fortificações. Veja-se a exposição do versículo trinta do quarto capítulo, título: “Nabucodonosor Enche a Medida”. Tal informação de crédito a Nabucodonosor, inserida no livro de Daniel, ninguém senão um escritor do século neo-babilônico podia ter fornecido. A presença de uma tal informação no livro de Daniel confunde completamente os maus críticos que não crêm que seu livro tenha sido escrito no sexto século, mas antes no segundo século a.C. Um típico exemplo do dilema que os envolve, é a seguinte confissão de R. H. Pfeiffer, da universidade de Harvard:”Nós presumivelmente jamais saberemos como o nosso autor tomou conhecimento, que a

as

Nova Babilônia foi a criação de Nabucodonosor escavações têm provado”. 2 BC, 748.

3. Belshazzar, rei de Babilônia, constituiu outra fortaleza dos

críticos contra o livro de Daniel. Até não faz muito tempo, Belshazzar

era olhado através do livro de Daniel, onde unicamente era referido, como uma figura legendária, em virtude de a história secular não o ter mencionado na lista cronológica dos reis de Babilônia. O silêncio que fizeram sobre Belshazzar os antigos historiadores, levou o mau criticismo a erguer-se contra a historicidade do livro de Daniel e a

como

,

1 Daniel 4:30.

2 Seventh-Day Adventist Bible Commentary, Vol. IV, pág. 748.

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duvidar mesmo da existência deste rei. A dificuldade era acentuada pelo fato que diversas antigas fontes davam listas dos reis de Babilônia até ao fim da história desta nação, as quais mencionavam

Nabonidos, em diferentes períodos, como último rei antes de Ciro, que foi o conquistador de Babilônia. Mas o livro de Daniel coloca os eventos imediatamente precedentes à queda de Babilônia no reinado

de Belshazzar. Porém, a alta crítica (ou baixa), inventou numerosas

interpretações para esplanar a aparente discrepância ante os relatos bíblicos e as fontes profanas. De acôrdo a Raymond P. Dougherty, em

Nabonidos e Belshazzar, páginas 13, 14; “Belshazzar era (1) um outro nome do filho de Nabucodonosor conhecido como Evil- Merodach, (2) um irmão de Evil-Merodach, (3) um filho de Evil- Merodach, conseqüentemente neto de Nabucodonosor, (4) um outro nome de Nergal-shar-usur, genro de Nabucodonosor, (5) um outro nome de Labashi-Merduch, filho de Nergal-shar-usur, (6) um outro nome dado a Nabonidus, (7) o filho de Nabonidus e uma filha de Nabucodonosor”. 1

Uma outra invenção dos críticos refere o nome de Belshazzar como uma invenção do escritor do livro de Daniel que viveu no tempo dos Macabeus no segundo século. Porém, nestes tempos modernos, a pá e a picareta da arqueologia reduziram a frangalhos as pretensões e ataques da

chamada “alta crítica” revelando a veracidade do registro de Daniel quanto a Belshazzar como personagem não imaginária ou legendária, não como filho dêste ou daquele, mas como filho de Nabonidos e co- regente com êste. Dentre os muitos achados arqueológicos que revelam a existência real de Belshazzar, citaremos uma insuspeita oração de Nabonidos, que julgamos o suficiente para confirmar os relatos de Daniel sôbre Belshazzar. Ei-la abaixo; “Quanto a mim, Nabuna’id rei de Babilônia, livra-me de pecar contra tua grande natureza divina e concede-me longos dias de vida.

E concernente a Belshazzar meu primogênito, o rebento de meu

corpo, seu coração encha tú também com respeito de tua grande divindade, para que êle jamais possa condescender no pecado. Permita-lhe satisfazer-se na abundância de dias”. 2 Isto escreveu Nabonidus dirigindo-se a Sin, deus da Lua. Esta própria declaração dêste rei atestando Belshazzar como seu filho

1 Seventh-Day Adventist Bible Commentary, Vol. IV, pág. 806.

2 A Dictionary of the Bible, John D. Davis, art. Belshazar.

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primogênito, que por direito seria o herdeiro do trôno, é suficiente para crermos na veracidade da pessoa histórica, dêste soberano. Verdadeiramente ficam, pelas modernas descobertas da arqueologia, pulverizadas as oposições da “alta crítica” quanto à historicidade do livro de Daniel, e mais que nunca este profeta de Deus e seu livro são reivindicados e exaltados como autênticos.

*

Segundo a teoria do pagão Porfírio, o quarto reino dos capítulos dois e sete de Daniel é aplicado no período helenista: Babilônia é contada como o primeiro império, Média como o segundo, Pérsia como o terceiro, e Alexandre e seus sucessores como o quarto. Todavia a Média e a Pérsia jamais formaram dois impérios mundiais separadas uma da outra ou uma seguindo à outra ou um conquistado pelo outro. Tanto pela profecia como pela História secular constatamos que os dois poderes uniram-se num só para submeterem Babilônia, o primeiro império, e formarem assim o segundo império mundial, da profecia e da História. Mas a teoria de Porfírio do quarto

reino helenista, define o “chifre pequeno” dos capítulos sete e oito de Daniel, como aplicável a Antíoco IV Epifane rei da Síria. Porém, no capítulo sete, o “chifre pequeno”, o mesmo do capítulo oito, surge da cabeça do quarto animal, que representa o quarto reino da terra ou Roma, e Antíoco Epifanes, em seu tempo, representou o poder sírio e

O “chifre pequeno” surgiu entre os 10 chifres

do quarto animal, romano que representam os bárbaros que dividiram Roma Ocidental e formaram a Europa moderna, 2 e Antíoco Epifanes não se levantou como rei em meio aos 10 reinos europeus e tão pouco destruiu três deles para sempre — Hérulos, Vândalos e Ostrogodos — como reza à profecia que faria o “chifre pequeno”. Vêr adiante, o título: “Estorvos no Caminho do Papado”. Antíoco reinou 11 anos e o “chifre pequeno” reinaria, como reinou, 1260 anos segundo a profecia. O reino que seguiu o império de Alexandre, não foi o reino de Deus, que, segundo a profecia, seguiria o quarto reino dividido em dez — mas Roma-Pagã foi que o seguiu. O “chifre pequeno” estenderia suas conquistas ao Oriente e ao Sul; mas Antíoco Epifanes foi detido no Sul, no Egito, pela palavra de um mero oficial romano, Caio Pompílio Lena, — veja página 339 — e na Palestina foi derrotado, por fim na guerra dos Macabeus. E

não o poder romano.

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1

1 Daniel 7:23.

2 Daniel 7:24.

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no Oriente, foi êle derrotado em sua última expedição que resultou em sua morte. Vemos assim, uma vez, que a teoria de Porfírio, ainda hoje esposada pelos modernistas e encontrada na maioria dos comentários críticos — de que o livro de Daniel foi fabricado por um desconhecido no período Macabeu depois de ocorridos os fatos por êle descritos, e não no sexto século por seu legitimo autor — tem-se demonstrado ridícula e destituída de fundamento. Nenhuma profecia de Daniel a ela se ajusta, principalmente quanto à sua pretensão do quarto reino helenista e muito menos de Antíoco IV Epifanes como representante do “chifre pequeno”. Inúmeros outros indestrutíveis argumentos poderiam ser aduzidos como evidências da nulidade da teoria de Porfírio ainda hoje aceita pelos declarados inimigos de Deus e da sã verdade revelada do Céu. Veja-se página 419 titulo: “Uma concepção errônea do “Chifre Pequeno”.

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Há no livro de Daniel duas linguagens distintas. Foi escrito parcialmente em hebráico e parcialmente em aramaico. Do capitulo um versículo um ao capítulo dois versículo três e do capítulo oito versículo um até ao fim do capitulo doze, foi escrito em hebráico, e, do capítulo dois versículo quatro até ao fim do capítulo sete, foi escrito em aramaico. Isto tem levado os críticos a numerosas conjeturas. Suas pretenções de que o livro é de posterior origem e não do sexto século, são baseadas, em parte, nos idiomas empregados no livro. Afirmaram que a seção aramaica corresponde ao aramaico usado no segundo e terceiro séculos a.C., e não ao aramaico usado no sexto século a.C. Entretanto, dizemos que a mera forma de linguagem não é em si mesma suficiente para estabelecer a data de escritos da antigüidade, porque os copistas daquele tempo eram acostumados a “modernizar” o estilo da ortografia ou fraseado, embora o pensamento original permanecesse. Dizemos de nossos dias, que a última revisão ortográfica da Bíblia Almeida em português pela Sociedade Bíblica do Brasil, não pode ser tomada como prova de que a Bíblia Almeida foi originalmente escrita ou traduzida no século XX. Assim com o livro de Daniel. Nada prova que o aramaico do livro, semelhante ao do segundo século, seja a última palavra para atestar que o profeta escreveu seu livro no segundo século. Aqueles que datam, a origem do livro de Daniel do segundo século a. C., têm também o problema da explanação: Por que um autor hebreu do período dos Macabeus escreveria parte do livro em

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aramaico e não todo êle em hebraico? Além disso, têm também de explicar a razão do autor introduzir 15 palavras persas e 3 gregas em seu livro, justamente no aludido período Macabeu, em que teve em vista encorajar, como afirmam, os seus compatriotas judeus afligidos por Antíoco IV Epifanes. Outro ponto que deixa perplexos e sem saída os opositores de Daniel e seu livro, é o notável fato que, a parte aramaica do livro é justamente a que trata de Babilônia como dominadora suprema no mundo. A profecia do capítulo oito, onde o autor retoma a escrever em hebraico, revelada exatamente no último ano de Babilônia como Império do orbe, já não trata mais dêsse poder. Daniel seguramente escreveu em aramaico, a língua da diplomacia mundial de então, a parte profética de seu livro que mais poderia interessar aos caldeus e para chamar-lhes a atenção para a derrocada que infalivelmente viria a seu império mundial. Nestes últimos dias o livro de Daniel foi completamente reivindicado. Seus infiéis opositores foram declarados ignorantes e considerados obstinados inimigos gratuitos da Bíblia. A arqueologia vem de dar um golpe de estremecer o ceticismo dos críticos, mormente pela descoberta, em 1947, numa caverna próximo ao Mar Morto, de parte de dois rolos do livro de Daniel — “contendo os nomes de Daniel, Cedrach, Mesach e Abednego, e incluindo o ponto onde a porção aramaica do livro começa”. 1

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Outro fato interessante do livro de Daniel é que o autor aparece em duas pessoas distintas. Nos primeiros sete capítulos Daniel fala de si na terceira pessoa; e nos capítulos Daniel fala de si na terceira pessoa; e nos capítulos subsequentes apresenta-se na primeira pessoa. E a razão é simples: As circunstâncias da época da história referida nos seis primeiros capítulos e da revelação contida no sétimo capitulo — eram desfavoráveis a si em face de seus não poucos gratuitos adversários, pelo que teve a prudência de não dar um auto- testemunho de sua pessoa como suprema em face de todos êles, preferindo escrever sua vitoriosa história e sua primeira grande revelação como se outrem as escrevesse, para não aparecer como superior em talento e caráter diante dos esbirros que o odiavam e assim exasperá-los ainda mais contra si. Assim sendo e ainda por ser considerado um cativo embora um grande homem do reino, preferiu

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1 The Prophetic Faith of Our Fathers, Vol. II, pág. 58.

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

Daniel falar de si na terceira pessoa como se não fôsse o autor da parte em questão do livro, provavelmente escrita até à sua libertação de perecer na cova dos leões. Porém, estava Daniel agora pràticamente livre de inimigos e do cativeiro que expirava, preferindo então escrever suas últimas visões — desde o capitulo oito ao fim de seu livro — aparecendo figurado como autor na primeira pessoa. Foi a prudência, para seu bem e de seu povo e como porta-voz de Deus em duas cortes — de Babilônia e da Medo-Persa — que ditou-lhe dever agir assim com referência à sua pessoa como autor de seu livro. Porém, a atitude de Daniel em preferir aparecer figurado em duas pessoas, como vimos, levou os críticos a descarregarem sôbre êle e seu livro mais uma porção de bombas, e negarem que o livro fôsse escrito por êle no sexto século a.C., mas insistindo que fôra escrito na primeira metade do segundo século a.C., ao tempo da guerra dos Macabeus contra Antíoco Epifanes. Todavia suas bombas eram e ainda são apenas de fumaça, não tendo o poder de destruir o famoso livro que permanece intacto e mais indestrutível do que jamais, como uma fortaleza inespugnável da Revelação em testemunho da verdade.

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Agora algumas palavras sôbre os críticos modernos que em nosso presente século persistem em defender a insustentável teoria arcáica de Porfírio, e que o fazem por devotado e injustificável ódio contra o cristianismo e a doutrina cristã. Infelizmente não fazem êles diferença entre o são cristianismo e o cristianismo espúrio e barato do tempo atual. Êste foi o grave êrro de Porfírio que redundou numa inglória guerra de sua parte mesmo contra o Filho de Deus — pois ninguém pode guerrear o cristianismo legítimo sem guerrear o seu Autor. Quanto ao livro de Daniel, recusam-se estes maus críticos a depor o orgulho que lhes é próprio ante às acumulativas provas de sua inspiração e sua composição no sexto século a.C., — e o fazem simplesmente por teimosia e falta de humildade e sinceridade em reconhecer o direito e a verdade que o livro encerra. A vesga é sempre repetida declaração porfírica, nestes modernos tempos, de que o livro de Daniel é uma farsa de autor fanático do segundo século a.C., só poderia proceder, realmente, duma mente pagã como a de seu originador, é aceita e propagada por cérebros enuviados como o seu — a serviço do inimigo da justiça — Satanás. Recusar a voz da História por já vinte e cinco séculos exaltando as profecias de Daniel

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num testemunho eloquente e indestrutível, deixando em tudo desbaratada a infeliz teoria de Porfírio e desmascarando totalmente a seus modernos propagadores, significa falta de senso e honradez. Quando cérebros que se julgam lúcidos, deixam de reconhecer o cumprimento exato e altamente comprovado daquilo que combatem sem tréguas, é de duvidar da lucidez de tais cérebros. Um após outro império, reinos e nações anunciados no grande livro de Daniel surgiram e caíram segundo os ditames de suas profecias. Cada pormenor encontrou irrecusável cumprimento nos fatos internacionais ocorridos. As predições que dizem respeito ao povo de Deus e ao Messias foram tão exatamente comprovadas pelos acontecimentos, mesmo em suas datas fixas preditas, que não podem deixar de causar, admiração. As que apontam os inimigos de Deus e de Seu povo também foram em todo o sentido perfeitamente cumpridas. Assim o uníssono testemunho da História em cumprir todas as profecias de Daniel atesta a sua divina inspiração. Recusar as profecias de Daniel como autênticas significa recusar e insurgir-se contra a própria História que as cumpriu do modo mais eloqüente e incontestável. Os fiéis cristãos, que prezam a Revelação de Deus, exarada no livro de Daniel e nos demais das Sagradas Escrituras, não serão afetados pelos deletérios ensinos forjados por seus opositores; por homens que à luz chamam trevas e as trevas chamam luz; que consideram o erro como verdade e a verdade como erro; por indivíduos, enfim, que se erguem ousadamente para enfrentar o Todo- Poderoso numa guerra ateística desajuizada. Um dia serão êles responsabilizados perante o tribunal do Excelso por seus deboches e seus despreziveis ataques de mentira à Revelação do céu. Tarde demais reconhecerão o ultrage e o sacrilégio que cometeram com toda a arrogância e insolente irreverência.

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O livro de Daniel é uma cronologia tão perfeita, desde Babilônia aos nossos dias, que seria impossível um plágio do segundo século a.C., ou de qualquer outro. Todos os grandes acontecimentos da História são tão perfeitamente exarados em suas profecias e tão evidentemente cumpridos desde vinte e cinco séculos atrás até ao presente, que em verdade é impossível que o nome do autor do livro aluda apenas a um simples pseudônimo para encobrir uma obra espúria, em vez de aludir ao nome de um legítimo, grande e inspirado profeta como autor.

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TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

A parte histórica do livro de Daniel, que trata de acontecimentos

internacionais ligados ao início e ao término do império de Babilônia, está em perfeita harmonia com escritos de outros profetas dos sétimo

e sexto séculos a.C., e com os de Herôdoto e Xenofonte, clássicos do quinto e quarto séculos a.C. respectivamente, — e portanto antes de Antíoco IV Epifanes, ou do segundo século a.C. — não podendo, portanto, ter sido forjada em primeira mão por um autor anônimo ou um pseudo Daniel da época de Macabeus. Cai assim por terra mais uma vez a expúria e malfadada teoria de que o livro de Daniel é obra inventada no segundo século em vez de original e legítima do sexto século.

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A data bíblica do livro de Daniel está em primeiro lugar ligada à

própria pessoa do escritor como indivíduo histórico e real do sexto século a.C. em Babilônia. O primeiro grande e incontestável testemunho nêste respeito é o de Ezequiel que foi também um dos cativos judeus no cativeiro babilônico, bem como um profeta de Deus entre os seus compatriotas no exílio. Como indiscutível prova de que Ezequiel foi um profeta do período do cativeiro, êle próprio relata quatorze revelações que recebera de Deus, datando cada uma delas com um dos anos do cativeiro, sendo que em dois daqueles anos

recebera três visões em cada um dêles. As datas das referidas visões, conforme relatadas em seu livro, são os anos 601, 600, 599, 597, 596, 595, 594, 581, 579, 576. Datando uma dessas visões, a do ano 581, o profeta começa enfaticamente assim: “No ano vinte e cinco do nosso cativeiro” 1 . Estas datas de suas visões comprovam que êle foi profeta no período do cativeiro pelo menos durante 25 anos, aliás, de 601 a 576 a.C. Repetindo, frisamos: Ficou provado e documentado pelo próprio profeta Ezequiel que êle foi um dos profetas do período do cativeiro, e, portanto, um compatriota-contemporâneo de Daniel. O inolvidável testemunho inspirado de Ezequiel sobre Daniel, seu contemporâneo, que é portanto o próprio testemunho de Deus mesmo, aqui o temos em suas palavras: “Eis que mais sábio és que

2 O profeta estava fazendo uma ilustração da sabedoria de

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Daniel

Lucifer na pessoa do rei de Tiro.

1 Ezequiel 1:2-3; 8:1; 20:1-2; 24:1; 29:1; 26:1; 30:20; 31:1; 32:1-17; 33:21-22; 40:1; 29:17; 1:1.

2 Ezequiel 28:3.

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Havia, então, segundo Ezequiel, no tempo do cativeiro babilônio, um sábio chamado Daniel. E não é discutível a verdade quanto a referir-se êle ao Daniel autor do livro que trás o seu nome. Aquele sábio Daniel, na altura deste testemunho, de Deus através de Ezequiel, cerca do décimo ano de cativeiro, 596 a.C., já era proverbialmente conhecido em Babilônia como principal sábio do reino mundial dos caldeus. 1 A solução que Daniel deu aos dois sonhos do rei Nabucodonosor (caps. 2 e 4), e às misteriosas palavras da parede do palácio festal de Belshazzar (cap. 5), o colocaram acima de todos os sábios do mundo de seus dias. A velha rainha, filha do rei Nabucodonosor, declarou ao agoniado rei Belshazzar na última noite de sua vida:

“Há no teu reino um homem, que tem o espírito dos deuses santos; e nos dias de teu pai se achou nele luz, e inteligência, e sabedoria, como a sabedoria dos deuses; e teu pai, o rei Nabucodonosor, sim, teu pai, ó rei, o constituiu chefe dos magos, dos astrólogos, dos chaldeus, e dos advinhadores. Porquanto se achou neste Daniel um espírito excelente, e ciência e entendimento, interpretando sonhos, e explicando enigmas, e sólvendo dúvidas, ao qual o rei poz o nome de Belteshazzar; Chame-se pois, agora Daniel, e êle dará a interpretação”. 2 Inquestionavelmente, portanto, o sábio Daniel do testemunho inspirado do profeta Ezequiel, seu contemporâneo, era o profeta Daniel, o autor do grande livro que consideramos, e que viveu, diante do testemunho daquele homem de Deus — no sexto século ou no reinado de Nabucodonosor rei de Babilônia. Outro testemunho sôbre Daniel, o Daniel do livro de Daniel como indivíduo do sexto século, é ainda o do próprio Senhor Deus através do mesmo Ezequiel, Seu profeta. Seu novo e indubitável testemunho é comprovante de que Daniel em verdade viveu nos dias do profeta Ezequiel, e, portanto, no sexto século a.C. Ei-lo: “Ainda

que estivessem no meio dela êstes três homens, Noé, Daniel e ”

Poderá alguém duvidar do testemunho de Deus? Se o Daniel do livro de Daniel fôsse, como querem os críticos, uma quimera do segundo século, Deus não falaria dêle no sexto século. Só há um grande Daniel em tôda a história bíblica — o Daniel do tempo do profeta Ezequiel e do rei Nabucodonosor, o Daniel do sexto século. É preciso

J 3 .

1 Daniel 1:20; 2:48.

2 Daniel 5:11-12.

3 Ezequiel 14:14, 20.

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ser muito cético e desafiante para rejeitar o testemunho do Todo- poderoso. Ainda um outro testemunho de valor eterno é o de nosso Senhor Jesus Cristo. Pondo sêlo de autenticidade no livro de Daniel, confirmou a veracidade de suas profecias e aconselhou atendê-las. Aqui estão as Suas palavras; “Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, atenda”. 1 Êste testemunho de Cristo eqüivale ao do Pai referente ao autor do livro de Daniel como profeta e escritor do sexto século. Daria o Senhor Jesus o Seu testemunho em favor de um autor espúrio, como é acusado o autor do livro de Daniel pelos críticos? Jamais isto faria o Filho de Deus. Assim, a data bíblica do livro de Daniel, testemunhada pelo profeta Ezequiel, por Deus e por nosso Senhor Jesus Cristo, é o sexto século a.C. E nenhum autor poderia escrever um tal livro a não ser que tivesse vivido no sexto século. O tríplice testemunho aqui dado destrói as invenções de má fé de Porfírio e seus seguidores.

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A historicidade do livro de Daniel ê uma verdade indiscutível. A parte histórica do livro abre-se com um grande acontecimento; a conquista da Judéia por Nabucodonosor, rei de Babilônia, no terceiro ano de Joaquim, rei dos judeus. Êste memorável sucesso, aceito sem qualquer oposição pelos simpatizantes do livro de Daniel, é inegável pelos críticos seus inimigos. O grande acontecimento político internacional de conquista mencionado inicialmente no livro, constitue um marco indestrutível de sua historicidade. Diremos que êle é o pórtico de acesso a uma obra em todo o sentido documentada por evidências que nenhum esforço poderá destruir. Os cinco primeiros capítulos do livro de Daniel encerram parte da história do império de Babilônia do ano 606 ao ano 359 a.C., amplamente comprovada pelas Sagradas Escrituras de vários profetas, pelos antigos historiadores clássicos e pela arqueologia moderna. O quinto capítulo demonstra bem evidente a derrocada final do império mundial caldeu sob o rei Belshazzar — nas mãos dos medos e persas unidos, fato sobejamente atestado pela história secular e os documentos arqueológicos dêstes últimos tempos. O sexto capítulo começa com a presença de Dario o Medo, o nôvo rei do mundo, personagem muito discutida, todavia comprovada afinal como

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1 S. Mateus 24:15.

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Xiaxares II, tio de Ciro o Grande, conquistador de Babilônia. Êste é o resumo do quadro histórico do livro de Daniel, documentado por fatos históricos ligados ao final do sétimo século e ao sexto século até ao ano 534 a.C. Somente um homem que viveu na época dêstes acontecimentos, que foi testemunha ocular deles e que os acompanhou com interesse, poderia referi-los como os referiu. Dai Daniel, o autor do livro que trás o seu nome ser aquele Daniel que foi profeta de Deus enquanto primeiro ministro de duas cortes mundiais no sexto século a.C. — a de Babilônia e a da Medo-Persa. Outras irrefragáveis provas da historiedade do livro de Daniel são as datas de suas visões que êle não esquecera de justapor às mesmas. O sonho do rei Nabucodonosor revelado a Daniel para que o notificasse e interpretasse, foi dado no segundo ano dêste soberano

604 a.C. 1 A visão do capítulo sete está datada do primeiro ano de

Belshazzar, 541 a.C. 2 A do capítulo oito, do terceiro ano dêste mesmo

monarca — 539 a.C. 3 A do capítulo dez, do terceiro ano de Ciro —

534 a.C. 4 A festa de Belshazzar, do capítulo cinco, foi realizada no

noite da queda de Babilônia sob Ciro 539 a.C. Êste é o testemunho do próprio autor do livro, quanto às datas em que recebera de Deus as revelações contidas em sua inspirada obra. Poderão os críticos dizer que os reis aludidos por êle em suas visões não existiram nas referidas datas claramente referidas no seu livro? Poderão dizer que ditos monarcas existiram no segundo século ou que foram inventados par um autor desconhecido? Ê possível duvidar do testemunho de um homem em favor de quem Deus, nosso Senhor Jesus Cristo e Ezequiel, o profeta, atestaram ter vivido no sexto século? Duvida-se de um homem, o mais sábio de seu tempo, um grande estadista, chanceler de duas poderosas cortes, um homem de caráter santo e puro em tôdas as suas revelações com Deus e os seus semelhantes, que provou ter recebido suas visões por direta inspiração de Deus, nos anos em que êle mesmo as referiu? O cumprimento histórico das profecias de Daniel revela eloqüentemente a historicidade de seu livro. Além dos poderes mundiais aludidos pelo profeta, além do poder do Papado; além da divisão do quarto império — Roma, poderosos monarcas foram

1 Daniel 2:1.

2 Daniel 7:1.

3 Daniel 8:1.

4 Daniel 10:1.

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também, referidos pelo profeta em suas visões, ainda que não citados por nome. Além de Nabucodonosor, Belshazzar, Dario o Medo e Ciro, citados nominalmente, incógnitamente foram referidos especialmente Xerxes, Grande, como o mais rico rei Persa; 1 Alexandre, denominado “rei valente”. 2 No capítulo onze são apontados os Tolomeus do Egito, os Seleucidas da Síria, seguindo-se em sua ordem César, Juba II da Numidia, César Augusto e Tibério. Êstes poderosos embora não citados por nomes nas profecias, são claramente evidenciados no cumprimento profético que cada um desempenhou no palco da História. Inúmeros soberanos do grande conflito dos séculos — as conquistas dos impérios, a divisão quádrupla do império de Alexandre, a divisão de Roma, a revolução francesa e outros grandes fatos revelados nas profecias de Daniel, desempenharam o seu papel no grande drama profético da História. A história do cativeiro de Judá no Oriente e seu regresso para reconstruir a Judéia, foi em parte o cumprimento de profecias verdadeiras de Daniel. O ano exato do primeiro advento de Cristo e de Sua morte são as mais fenomenais e impressionantes verdades das profecias de Daniel, que encontraram irrecusável cumprimento no batismo de Jesus e na Sua crucificação. A exposição do livro de Daniel como dada neste volume, é um notável e evidente testemunho histórico que não pode ser jamais contraditado. Revela a autenticidade histórica do profeta e de seu livro de modo maravilhoso, vendo-se nele, uma poderosa mensagem para esta atual geração, e, acima de tudo, divisa-se no livro um Deus Supremo que tudo dirige para o bem de Seus filhos, e um supremo e amante Salvador entregando Sua vida no patíbulo do Calvário para redimir a humanidade. A historicidade do livro de Daniel fica aqui, pois, incontestavelmente comprovada pelos testemunhos da História e pelas evidências do plano da salvação traçado em suas profecias e nelas cumprido a todo o rigor. O livro de Daniel, do princípio ao fim, encerra uma esmagadora evidência da verdade contra a putrefata teoria do pagão filósofo Porfírio, que fica ridicularizada e aniquilada, bem como desmoralizados todos os seus falsários propagadores através dos séculos.

1 Daniel 11:2.

2 Daniel 11:3.

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INTRODUÇÃO

O livro que consideramos constitue uma verdadeira maravilha da Inspiração. Certamente e com muita antecedência, determinou Deus, em Seu conselho, prover e revelar aos homens a inédita matéria histórica e profética nele contida. A grandeza de suas duas sessões é de tal natureza que o mundo não poderia ficar privado de tão indispensável revelação que demonstra com clareza a supremacia absoluta de Deus. Um único pensamento, se queremos referí-lo, domina inteiramente tanto a parte Histórica como a Profética do livro: — O contrôle de Deus sôbre os poderes da Terra para o cumprimento de Seu eterno propósito. Diante, pois, da magnitude da obra em apreço, exigiu ela um grande autor humano inspirado, um eminente homem de Deus, um porta-voz digno do Todo-poderoso. E, para tão empolgante missão do Céu êste homem não foi escolhido à revelia. O divino Revelador soube escolher um personagem de caráter, de vida santificada, de princípios fundamentais e nobres, que pudesse revelar com firmeza — em palavras e obras — à antiga Babilônia e ao mundo de todo o futuro, a um Deus supremo e único bem como o Seu grandioso plano de amor para a redenção do gênero humano. Sim, a escolha de Deus recaiu num homem cônscio de seu dever, habilitado a expôr o inédito plano divino e capacitado a apelar ao coração e consciência tanto de reis e cortezões de seus dias como dos homens de todos os séculos por vir, afim de tomarem conhecimento da redentora mensagem, de Deus advinda por seu intermédio e a examinarem com interesse. Daí qualquer homem não servir para o honrado encargo. Em verdade não era simplesmente questão dum homem para que Deus o pudesse usar para tão sublime propósito, mas sim dum caráter santo e puro, sábio e humilde, despretensioso e compreensível, acessível e moldável pela Onipotência. Só um tal homem representaria com plena vantagem e real sucesso os desígnios do Excelso e o Seu amor em comunicar aos homens as resoluções de Seu eterno conselho. E o homem apontado por Deus para tão elevado empreendimento, foi, como não poderia deixar de ser — Daniel, o

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príncipe de Judá. Infalívelmente Deus o escolheu dantemão em Seus desígnios para que desempenhasse o importante papel inspirado que desempenhou nas duas cortes citadas, de Babolônia e da Medo-Persa,

tal como se depara-nos na primeira parte de seu notável livro, e legasse à humanidade, em Seu nome, a extraordinária cadeia de revelações que constitue a segunda parte de sua inigualável obra. A história de Daniel é uma história notável. Sua fé e seus santos princípios prevaleceram contra tôda a oposição e corrupção. A pena da Inspiração o apresenta como um caráter brilhante, imaculado e irrepreensível. A luz do céu dele irradiava em torrentes inexauríveis, e em Babilônia sua fé foi compreendida como a virtude que lhe enobrecia a vida c lhe embelezava o caráter. Homem íntegro, complexo, inatacável, teve a seu favor o maior testemunho de seus próprios inimigos; “Nunca acharemos ocasião alguma contra êste

1 . Sua vida é hoje ainda uma inspirada ilustração do que

constitue um caráter santificado. Constituiu Daniel em todo o passado

e ainda constitue no presente, um nobre exemplo do que podem

tornar-se os homens quando unidos incondicionalmente com Deus. Daniel foi um homem de verdadeira fé, de fervente oração, de profunda consideração para com as coisas de Deus. Moral e espiritualmente corajoso e dedicado ao dever. Intelectualmente era um gigante. Foi reconhecida como o maior sábio de seu tempo e até ao presente nenhum indivíduo humano o igualou em sabedoria. Moralmente era completo — nenhum engano terreno foi capaz de corrompê-lo. Embora colocado onde a tentação em todo o sentido era forte; onde a dissipação imperava em todos os lados; onde a glutonaria, intemperança e imoralidade eram a ordem do dia, propôs não se contaminar mas permanecer firme ao lado da moralidade e da justiça. Levado em sua plena juventude como um cativo à mais corrompida côrte e cidade de seus dias, permaneceu como uma inabalável coluna em meio à tempestade de tôda a espécie de pecados e degradação. Tomou o propósito e o cumpriu à risca de não adotar

os perversos costumes de Babilônia. “Daniel possuía a graça de genuína mansidão. Era verdadeiro, firme e nobre. Procurava viver em paz com todos, ao mesmo tempo que era inflexível corno o cedro altaneiro, no que quer que envolvesse princípios. Em tudo que não entrasse em colisão com sua fidelidade de Deus, era respeitoso e obediente para com aqueles que sôbre êle

Daniel

1 Daniel 6:5.

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tinham autoridade; mas tinha tão elevada consciência das exigências de Deus que as de governadores terrenos se lhes subordinavam. Êle não seria induzido por nenhuma consideração egoista a desviar-se de seu dever. “O caráter de Daniel é apresentado ao mundo como um admirável exemplo do que a graça de Deus pode fazer de homens caídos por natureza e corrompidos pelo pecado. O registro de sua vida nobre, e abnegado, é uma animação para a humanidade em geral. Dela podemos reunir forças para resistir nobremente a tentação, e firmemente na graça da mansidão, suster-nos pelo direito sob a mais severa provocação”. 1 Em Babilônia Daniel, ainda que um profeta de Deus, galgou o posto de maior estadista de todos os tempos no cargo de primeiro ministro ao lado do rei Nabucodonosor, o monarca mundial. Deus o colocou ao lado do trono do mundo como uma gloriosa luz para todos quantos quizessem aprender do Deus vivo e verdadeiro. “Em nome de Deus, Daniel revelou ao rei a mensagem celeste de instrução, advertência e reprovação, e não foi repelido”. 2 “Em Babilônia, Daniel foi pôsto em funções muito probantes, mas ao passo que desempenhava fielmente os seus deveres de estadista, evitou firmemente participar de qualquer coisa que fôsse contrária a Deus. Êsse procedimento provocava discussões, e o Senhor atraiu, assim, a atenção do rei de Babilônia para a fé de Daniel. Deus tinha luz para conceder a Nabucodonosor, e por meio de Daniel foram apresentadas ao rei as coisas preditas nas profecias concernentes a Babilônia e a outros reinos. Por meio da interpretação do sonho de Nabucodonosor, Jeová foi exaltado como sendo mais poderoso que os governantes terrestres. Assim, pela fidelidade de Daniel, Deus foi honrado”. 3 A Onipotência, em Sua sabedoria, empregou meios para despertar favoravelmente a atenção do rei Nabucodonosor para Daniel como Seu representante em sua côrte. Isto ilustra a maneira como Deus usa os homens para cumprir o Seu propósito sôbre a terra. O Senhor pôde usá-lo porque êle era um homem de princípios, um homem de genuíno caráter, um homem cujo principal objetivo nesta vida era viver unicamente para Deus.

1 A Santificação, E. G. White, pág. 22.

2 Testemunhos Seletos, E. G. White, ed. mundial, Vol. III, pág. 152.

3 Testemunhos Seletos, E. G. White, ed. mundial, Vol. III, pág. 161.

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Daniel “propôs em seu coração” viver em harmonia com tôda a vontade revelada do céu. E com isto pôde Deus exaltá-lo e fazê-lo Seu honrado representante naquele reino. Em primeiro lugar despertou

Deus a simpatia e o favor dos oficiais de Babilônia para com êle. Isto preparou o caminho para o segundo passo, — a demonstração da superioridade física de Daniel e seus companheiros. Então seguiu-se

a demonstração de superioridade intelectual. Assim, em

personalidade, físico e intelecto, Daniel provou ser marcadamente

superior aos demais homens de seu tempo, ganhando daí a confiança

e o respeito do rei de Babilônia. Êstes eventos prepararam Nabucodonosor para encontrar o Deus

de Daniel. Uma série de dramáticas experiências — o sonho do capítulo dois, o espantoso livramento, da fornalha ardente mencionado no capítulo três e o sonho referido no capítulo quatro — evidenciaram ao grande rei o conhecimento, o poder e a autoridade do Deus de Daniel. A inferioridade do conhecimento humano através

dos tidos como maiores sábios de Babilônia e do mundo, comprovada

na experiência de seu primeiro sonho, levou Nabucodonosor a admitir

a Daniel: “Certamente, o vosso Deus é Deus dos deuses, o Senhor dos

reis, e o Revelador dos segredos”. 1 O rei reconheceu abertamente que a sabedoria de Deus era superior, não somente quanto ao setor humano, mas também quanto à suposta sabedoria dos deuses. O incidente da imagem de ouro e a fornalha ardente levaram Nabucodonosor a admitir que o Deus do céu “livrou Seus servos”. 2

Sua resolução foi que ninguém em todo o reino “pronunciasse alguma

blasfêmia contra o Deus dos hebreus, em virtude do fato de que

“nenhum outro Deus” podia livrar como Êle. 3 Nabucodonosor reconheceu então que o Deus do céu não era unicamente sábio mas poderoso; que Êle não era unicamente Onisciente mas Onipotente. A terceira experiência — os sete anos durante os quais sua própria jatanciosa sabedoria e seu poder foram temporàriamente removidos — ensinou ao rei que o Altíssimo não só era sábio e poderoso mas

que exercia tal sabedoria e poder para governar também os negócios

dos homens na terra. 4 É significativo que o primeiro ato de Nabucodonosor depois do retorno de sua ramo foi louvar, exaltar e

glorificar “ao Rei dos céus” e reconhecer que “aos que andam na

1 Daniel 2:47.

2 Daniel 3:28.

3 Daniel 3:29.

4 Daniel 4:32.

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soberba” como êle andava por muitos anos, Deus “pode humilhar”. 1 Tudo isto, porém, foi possível e demonstrado através dum homem extraordinário usado por Deus; um homem que permaneceu ao lado do direito porque era direito. Daí ter sido Daniel amplamente abençoado por Deus para ser a inapreciável bênção que demonstrou ser, ao mundo de seu tempo. Por seu intermédio transmitiu Deus a duas cortes imperiais luz como conduzirem um govêrno próspero e honrado no mundo. Isto foi conseguido na segunda metade do reinado de Nabucodonosor. Houvessem os seus sucessores seguido o plano de govêrno de que tiveram conhecimento pelo exemplo de Daniel como primeiro ministro, a sorte do reino caldeu teria sido bem diversa. Houvessem os soberanos medo-persas seguido a orientação governativa de Daniel do reinado de Dario o Medo, não teriam sido os bárbaros senhores do mundo que foram e consequentemente não teriam as constantes dificuldades que tiveram em repelir inúmeras rebeliões em todo o vasto reino — e o destino do império Aquemenide teria sido bem outro. Deixassem hoje os governantes das nações instruir-se por Deus, fariam um govêrno brilhante, próspero e coroado de justiça, — em vez do caos em que tornaram a hodierna civilização com tantas ideologias políticas malsãs e ruinosas à por êles opressa e desesperançada família humana. Em Babilônia Daniel não agia a sós. Sua gloriosa obra foi secundada por três companheiros seus, judeus, de cativeiro. Os quatro formavam um quadrado invulnerável que nem fogo nem leões foram capazes de destruir. Nenhuma força, nenhum poder, nenhuma influência, nenhuma circunstância os afastaram dos princípios da justiça que tinham aprendido no limiar da vida mediante o estudo da Revelação e das obras da criação de Deus. A intrepidez e a lealdade de fé em Deus por êles manifestas nos maiores perigos, encheram os séculos de assombro e admiração. E, na putrefata cidade de Babilônia, em meio ao falso culto idolatra, no mais vil antro de imoralidade ante o orgulho, a soberba e a luxúria, permaneceram incólumes. Passaram por todos os testes possíveis e permaneceram inexpugnáveis ao lado do direito de Deus. A enormíssima bênção que foram para a grande metrópole e para todo o reino caldeu não se pode avaliar nesta vida. “Reuniam- se, nas cortes de Babilônia, representantes de todas as terras, homens de talentos os mais seletos, os homens os mais ricamente dotados de

1 Daniel 5:37.

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dons naturais, e possuidores da mais elevada cultura que êste mundo podia proporcionar; todavia entre êles todos, os cativos hebreus eram inegualáveis. Na resistência física e na beleza, no valor mental e nas consecuções literárias, no poder espiritual e na visão, eram sem rival”. 1 Os quatro jovens foram preferidos pelos soberanos de seus dias, Daniel alcançou o segundo pôsto em dois reinos mundiais, “e seus três companheiros foram feitos conselheiros, Juízes e governadores no meio da terra”. 2 Deveras a bênção que êles foram quer no govêrno dos homens quer na sociedade humana, não poderá ser apreciada pela linguagem da terra. Deus os usou como embaixadores Seus ao mundo de então porque podia confiar na integridade que caracterizava em sentido geral as suas vidas. Encontraremos, nestes modernos e corrompidos tempos, cristãos da tempera de caráter como a dêles, tão fiéis defensores da justiça que Deus os possa usar com o mesmo êxito com que os usou naquela antigüidade corrupta?

1 Testemunhos

2 Fundamentals of Christian Education, E. G. White, pág. 412.

Seletos, E. G. White, ed. mundial, Vol. II, pág. 478.

P R I M E I R A

P A R T E

SEIS CAPÍTULOS DE HISTÓRIA ALUSIVA AOS EMBAIXADORES DE DEUS NA CÔRTE DE BABILÔNIA

CAPÍTULO I

EMBAIXADORES DE DEUS NA CÔRTE DE BABILÔNIA

Introdução

Com êste primeiro capítulo começamos a descortinar a história e as profecias do maravilhoso livro de Daniel. A impressionante narrativa começa com a mensão de acontecimentos de grande transcendência. A invasão da Judéia é o primeiro grande relato que se apresenta, o evento chave que assinalou a data inicial exata do cativeiro babilônico conforme predito pelo profeta Jeremias. 1 Dois reis se encontram — Nabucodonosor, de Babilônia, e Joaquim, da Judéia — o primeiro para conquistar e o segundo para ser conquistado e reduzido à simples condição de vassalo. Apenas os dois primeiros versículos do capítulo dão conta do início do cativeiro; os demais encerram o glorioso começo da história dos homens aos quais confiou Deus a honrosa missão de embaixadores Seus na côrte mundial de Babilônia. O testemunho que deram e a firmeza com que se desincubiram da missão do Céu, foi um triunfo em honra da causa de Deus até agora não igualado. Coisa alguma os demoveu da senda do direito. Nem mesmo um fôrno de fogo e uma cova de leões tiveram o poder de afastá-los do sagrado dever e da honra de servirem lealmente a Deus. Da grande bênção que caracterizou a vida que naquela côrte e naquele reino viveram, só a eternidade poderá revelar os seus indizíveis resultados.

O REINO JUDEU EM DEMANDA DO ABISMO

VERSO 1: — “No ano terceiro do reinado de Joaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei de Babilônia, a Jerusalém e a sitiou”.

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O reino de Judá caminhava a passos largos para desaparecer. A

desobediência aberta e desafiante às leis de Deus e a franca rebeldia de seus monarcas à palavra de Seus profetas, levavam à nação a colhêr amargos e desastrosos frutos. A rebelião metódica e deliberada contra Deus e seus inspirados conselhos já vinha de longe. O anélo de Deus era abençoar a nação e fazer dela uma admiração ao mundo para que cumprisse o Seu divino propósito a fim de preparar as nações da terra para o primeiro advento de Cristo. Mas isto estava sendo impedido pela crescente apostasia. O povo escolhido, alvo de incontáveis manifestações do imensurável amor de Deus — em cuidados, dádivas e proteção contra os seus inimigos, não reconhecera isso embora se julgasse povo de Deus e acima de tôdas as demais nações do mundo. Mas nada mais enganoso do que esta pretenção. Abeiravam-se mais e mais do abismo da perdição com a jatância da nação escolhida e privilegiada. Finalmente mais três reis, num curto período que ainda Deus concedia, iriam assentar-se no trono, mas tão somente para afundá-lo mais e apressar os juízos de Deus. O jatancioso orgulho ia ser decepado, a nação inteiramente arrazada, seus monarcas

destituídos e mortos e o povo conduzido em cativeiro por longo tempo.

JOAQUIM — REI DE JUDÁ

Depois da morte do rei Josias, seu filho Joacaz foi elevado ao

trono em seu lugar, sendo, porém, deposto três meses depois por Faraó Neco. Como seu sucessor o rei no Egito estabeleceu a Eliakim, seu irmão, mudando-lhe o nome em Joaquim. Êste nôvo soberano ascendeu ao trono aos 25 anos de idade, tendo reinado 11 anos em Jerusalém e seguido os maus passos dos maus reis judeus naquele trono. 1

O rei Joaquim fêz transbordar a taça do pecado do trono de Judá e

aproximou a nação mais e mais da beira do precipício fatal como realeza independente. O profeta de seu reinado, Jeremias, fêz em nome de Deus tudo o que era possível para salvar o trono e o reino do colapso que se avisinhava. Porém, suas poderosas mensagens de conselhos e apelos, resultaram em nada. Finalmente foi pronunciada a irrevogável sentença como prêmio da abjeta rebelião contra Deus:

Deveriam ser levados em cativeiro para Babilônia, por setenta anos, e tôda a nação e suas cidades seriam totalmente arrazadas, incluso o famoso templo. Os caldeus com seu poderoso rei, seriam os

1 II Reis 23:31-37.

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

instrumentos que Deus usaria para justiçá-los como povo rebelde, sacrílego e irreverente. As mensagens de Jeremias ao rei, aos sacerdotes e ao povo despertaram o antagonismo de muitos, mesmo de falsos profetas que

se ergueram contra êle. Assim a mensagem de Deus foi desprezada e

Seu mensageiro ameaçado de morte. 1 Jeremias, entretanto, com firmeza e destemor, continuou a repreender o pecado e a asseverar a iminência do juízo sob Nabucodonosor e o cativeiro de setenta anos em Babilônia como prêmio da desobediência. No ano 606 a.C., Nabucodonosor, em campanha no sul do ocidente da Ásia, invadiu a Judéia, cercou Jerusalém e aprisionou o rei Joaquim “e o amarrou com cadeias, para o levar a Babilônia”. 2 (ver apêndice nota 8). O rei judeu, porém, prestou juramento de fidelidade ao vencedor e foi deixado no trono como vassalo. Três anos depois,

todavia, em 604, rebelou-se e “violou sua palavra de honra ao rei de Babilônia”. 3 Isto o levou, como também o seu reino, a um caminho de grande apêrto. Jeremias continuou vibrando da parte de Deus tremendas mensagens de censura à quebra da palavra empenhada ao rei Nabucodonosor pelo rei de Judá. A fim de tornar claro o juízo impendente e a destruição total que

se apressava, o profeta é ordenado por Deus a levar consigo os anciãos do povo e os sacerdotes ao vale do filho do Hinn, lugar onde muitas vêzes os reis se corromperam com o falso culto de Baal, e, depois de mais uma vez adverti-los da sorte que aguardava tôda a nação, quebrou em muitos pedaços, diante dêles, uma botija que levara por ordem de Deus, e lhes disse: “Assim diz o Senhor dos Exércitos:

Dêste modo quebrarei Eu a êste povo, e a esta cidade, como se quebra

o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se”. 4 Mas não se

arrependeram! Possuídos de satânica ira, feriram a Jeremias e o aprisionaram pondo-o no “cepo”. Por cêrca dêsse tempo, no quarto ano de Joaquim, Jeremias, que estava prêso, escreveu em nome de Deus um livro em pergaminho, por intermédio de Baruch filho de Nerias, um escriba seu amigo, contendo tôdas as ameaças do Céu contra o ímpio rei e seus súditos. Baruch devia ler o livro ao povo na casa do Senhor, no dia nacional de jejum no nono mês no seguinte ano — o quinto de Joaquim. E assim o

1 Jeremias 26:8-15.

2 II Crônicas 36:6.

3 II Reis 24:1.

4 Jeremias 19:1-15; 20:1-2.

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fêz Baruch no “átrio superior à entrada da porta nova da casa do Senhor, aos ouvidos de todo o povo”. 1 A surpreendente nova chegou aos príncipes que estavam reunidos no palácio real. Ordenaram êles a Baruch que lêsse o livro em particular para êles. E, ouvindo-o todos e temerosos de sua mensagem, comunicaram-se com o rei. O monarca pede que um de seus assistentes, Jeudi, lêsse o livro em sua presença. Entretanto, o ímpio rei, à medida que ia sendo lida a mensagem de reprovação e de juízo, cortava o livro com um canivete e o consumia em um brazeiro que havia à sua frente, até que o livro e sua mensagem foram inteiramente consumidos. Êste ato manifestou, em vez de temor e arrependimento, um verdadeiro desafio a Deus. Deu ordem o rei que prendessem a Baruch e Jeremias — mas Deus os tinha em segurança. Um outro livro idêntico foi escrito por Baruch, ditado por Jeremias. A sorte do rei Joaquim e seus cortesões foi terminantemente selada: “Portanto assim diz o Senhor, acêrca de Joaquim, rei de Judá:

Não terá quem se assente sôbre o trono de Davi, e será lançado o seu cadáver ao calor do dia, e à geada de noite”. “Não lamentarão por êle, dizendo: Ai, meu irmão, ou ai, minha irmã! nem lamentarão por êle, dizendo: Ai, senhor, ou, ai, majestoso! Em sepultura de jumento o sepultarão, arrastando-o e lançando-o para bem longe, fora das portas de Jerusalém”. 2 Êste destino que êle mesmo procurou, seria a recompensa de sua própria rebelião contra o céu, de sua perseguição contra Jeremias e de seu crime de morte contra um dos profetas de Deus — Urias. 3 No undécimo ano de seu reinado, 598 a.C., vê Joaquim o seu reino novamente invadido pelo exército de Nabucodonosor — constituído de caldeus, sírios, moabitas, amonitas — cujo fim era tudo destruir. 4 Cumpriu-se então em Joaquim o juízo particular de Deus sôbre sua pessoa, como acima descrevemos da predição de Jeremias. Josefo confirma o juízo sôbre o rei de Judá nestas palavras: “Pouco tempo depois, o rei Nabucodonosor veio com um grande exército e o rei Joaquim, que não desconfiava dêle e que estava perturbado pelas predições do profeta, não se tinha preparado para a guerra. Assim, êle o recebeu em Jerusalém, com a certeza que lhe dera de não lhe fazer mal algum. Mas faltou-lhe à palavra, mandou matá-lo, com a fina flôr

1 Jeremias 36:10.

2 Jeremias 36:30; 22:18-19.

3 Jeremias 26:20-24.

4 II Reis 24:2.

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

da juventude da cidade e ordenou que lhes lançassem os corpos fora de Jerusalém, sem lhes dar sepultura”. 1 Mas a grande lição não foi aprendida pelos dois seguintes sucessores de Joaquim, postos no trono da Judéia pelo rei Nabucodonosor. Continuaram firmes na rebelião a Deus e ao rei de Babilônia. E o próprio santo profeta de Deus continuou a ser hostilizado, prêso e ameaçado de morte. Com o último rei, Zedequias, o reino foi definitivamente liquidado pelo rei vencedor, e o povo judeu continuou sendo transportado para o cativeiro babilônico predito, em levas sucessivas. O último ato do drama foi o arrazamento da cidade capital do reino — Jerusalém. (Ver apêndice notas 8 e 11). Estava encerrada a história da realeza judia. Em poucos anos Joaquim “encerrou o seu desastroso reinado em ignomínia, rejeitado do céu, malquisto por seu povo e desprezado pelos senhores de Babilônia cuja confiança traíra — e tudo isto como resultado de seu êrro fatal de virar as costas aos propósitos de Deus como revelados por meio de Seu escolhido mensageiro”. E seus sucessores imediatos não tiveram também senão o destino terrível que escolheram livremente.

NABUCODONOSOR — REI DE BABILÔNIA

O rei Nabucodonosor é o maior monarca político do mundo antigo e na história bíblica o mais citado de todos os soberanos que se relacionaram com o povo de Deus na antigüidade. É referido nominalmente noventa vêzes em nove livros das Sagradas Escrituras. É Nabucodonosor três vêzes chamamado por Deus — Meu servo. 2 Duas vêzes é referido que Deus pôs Sua espada na mão dêste poderoso rei caldeu, para em Seu nome exercer juízo sôbre as nações. 3 Tôdas as nações de seus dias seriam entregues por Deus à soberania dêste rei e à de seus sucessores por setenta anos. 4 O grande monarca é chamado “leão” e “rei dos reis” na história sagrada. 5 Sem contar Nabucodonosor os anos de co-regência com seu pai Nabopolasar, galgou o trono em definitivo, por morte dêste, em 606 a.C., quando em campanha no sul do ocidente da Ásia contra o domínio do Egito que se fazia forte até à Síria e o rio Eufrates.

1 Josefo, livro X, cap. VIII.

2 Jeremias 25:9; 27:6; 43:10.

3 Ezequiel 30:24-25.

4 Jeremias 27:6-8; 28:14; 25:11.

5 Jeremias 50:17; Ezequiel 26:7.

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Vitorioso avançou até à Judéia, submetendo o rei judeu Joaquim no terceiro ano do reinado dêste monarca. Um dos pormenores cronológicos de Jeremias coloca o primeiro ano de Nabucodonosor no quarto ano de Joaquim, embora Nabucodonosor já como rei co-regente tenha submetido aquêle soberano judeu no ano anterior. O terceiro ano de Joaquim, 606, foi o ano da ascenção de Nabucodonosor. Conforme o costume babilônico de não incluir o ano da ascenção de seus soberanos no cômputo dos anos oficiais de reinado, verificamos, em verdade, conforme Jeremias, que o primeiro ano oficial de Nabucodonosor foi o ano 606 a.C. ou seja o quarto ano de Joaquim na Judéia. 1 Em 605 a.C., no quarto ano de Joaquim, Faraó Neco avançou até ao rio Eufrates na tentativa de reaver seus domínios perdidos no ano anterior ao rei Nabucodonosor. Foi, porém, vencido em Carchemis, tendo Nabucodonosor garantido suas conquistas até à Palestina e assegurado sua posterior vitória sôbre o próprio Egito. 2 Nabucodonosor reinou sôbre todo o mundo durante 43 anos, desde 605 a 562 a.C. Era a sua pretenção que seus compatriotas continuariam depois dêle empunhando para sempre o cetro do mundo. O capítulo três encerra uma evidência de seu poder, majestade e glória no trono da terra. O primeiro símbolo do capítulo sete, um leão, demonstra seu invencível poder e suas vitoriosas campanhas sôbre as nações. Porém, o capítulo quatro oferece um panorama de sua conversão e incondicional entrega de sua vida ao Deus de Israel, para honrá-l’O e serví-l’O pelo resto de sua existência.

O TERCEIRO ANO DE JOAQUIM

Sôbre o terceiro ano do rei Joaquim da Judéia, veja-se o apêndice — nota 5 — sôbre o terceiro ano de Ciro. Tenhamos o cuidado de não confundir Joaquim com o seu filho e sucessor de nome quase idêntico — Joachin — e até, em algumas versões, perfeitamente idêntico. O primeiro reinou 11 anos em Jerusalém, tendo dramática morte predita pelo profeta Jeremias; o segundo reinou apenas três mêses, também em Jerusalém, sendo logo deposto e levado em cativeiro para Babilônia, onde permaneceu no cárcere até ao trigésimo sétimo ano de seu cativeiro, aliás, até ao ano 562 a.C., sendo liberto da prisão neste ano, o primeiro ano de Evil

1 Jeremias 25:1.

2 Jeremias 46:1-2.

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Merodach, e por êste rei, filho e sucessor de Nabucodonosor. 1

O ESTRANHO REMÉDIO DE DEUS

VERSO 2: — “E o Senhor entregou nas suas mãos a Joaquim, rei de Judá, e uma parte dos vasos da casa de Deus, e êle os levou para a terra de Sinar, para a casa do seu deus, e pôs os vasos na casa do tesouro do seu deus”.

NABUCODONOSOR — O AÇOITE DE DEUS

O rei Joaquim de Judá foi o alvo principal da arremetida do rei de Babilônia na Judéia. Dos vinte monarcas do reino, fôra êle um dos piores dos doze maus monarcas. A despeito de seu pai Josias ter sido um dos melhores e mais consagrados potentados, êle, entretanto, não correspondeu aos reclamos divinos duma liderança dependente exclusivamente de Deus. Orgulhoso, altivo, sempre pronto a regeitar os bons conselhos do profeta de Deus, trouxe afinal a desgraça a êle mesmo e em particular e a tôda a sua nação. Recusando-se definitivamente a reconhecer a Deus como supremo e verdadeiro soberano da nação judaica e a aceitar a orientação do céu para sua felicidade pessoal e de seu povo, o rei Joaquim lavrou sua própria terrível sentença e a de seus súditos que lamentavelmente o apoiaram na rebelião contra Deus. Êle e todo o país encheram a copa da maldade e nada mais se esperava agora senão a intervenção iminente de Deus no reino, conforme já desde muito anunciada. E, Nabucodonosor, rei de Babilônia, como vimos, foi o instrumento escolhido pelo Todo-poderoso para dar-lhe a paga de seu ousado ultraje à majestade do universo. Joaquim reinava como se o reino fôsse seu próprio, recusando-se a reconhecer que estava no trono do reino de Deus na terra. 2 E assim contribuiu, como outros maus reis seus antecessores no mesmo trono, para que Deus puzesse termo em definitivo à realeza judia. Deus mesmo entregou êste monarca nas mãos de Nabucodonosor. Por muito tempo o Senhor protelou fazer isto, enviando-lhe poderosas mensagens, mas tôdas foram rejeitadas e até queimadas e o profeta de Deus sèriamente ofendido e hostilizado. O resultado foi cair na mão do conquistador do mundo e tornar-se seu vassalo, cujo rei o matou mais tarde.

1 Jeremias 52:31-34.

2 I Crônicas 29:23.

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O TEMPLO É PILHADO POR ORDEM DE DEUS

Naqueles antigos tempos os judeus adoravam mais o famoso templo construído por Salomão, em Jerusalém, do que o próprio Senhor do templo. O templo parecia ser tudo para êles. Todo o sistema sacrifical e o ritual do culto do templo que era o plano da salvação de Deus em figuras, não consideravam tão importante como a própria estrutura do edifício. Não há dúvida que aquêle templo era uma obra maravilhosa. Mas cometiam o êrro de considerá-lo mais importante do que o glorioso culto divino simbólico, deixando de lado a substância de todo aquele simbolismo, — o Salvador do mundo morto na cruz. Ao se apresentar aquêle povo no templo com suas ofertas sacrificais, o faziam dum modo formalístico, destituído de fé na realidade oculta nas ofertas típicas. Do famoso templo lhes dissera Jeremias: “Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é êste”. 1 Enquanto veneravam a casa, não honravam o seu culto e o que êle significava. O profeta apela para que se convertam em vez de confiarem apenas no magnífico edifício. Nos dias de Jesus entre aquêle povo, Êle lhes diz que aquêle templo — que já não era o original de Salomão — seria arrazado até aos alicerces, pois O rejeitavam sendo Êle a verdadeira substância de todo aquêle sistema de adoração. 2 Nabucodonosor invade o templo com seu exército e o pilha. Arrebatou-lhe preciosos “vasos” ou utensílios sagrados do seu ritual. Era o ano 606 a.C. e êstes foram os primeiros vasos sagrados transportados a Babilônia pelo vencedor de Joaquim. 3 Nova remessa de vasos são levados à capital do mundo em 598 a.C., quando Joachin foi destituído. 4 E, então, em 587 a.C., foram levados os restantes vasos quando o rei Zedequias foi deposto e o templo destruído. 5 Ao todo contaram os vasos “cinco mil e quatrocentos”. 6

ONDE FORAM PARAR OS VASOS

O vitorioso rei Nabucodonosor coloca os sagrados vasos “na casa do tesouro de seu deus”, em Babilônia, provavelmente do deus Marduk, que, desde os tempos da primeira dinastia, mais de mil anos

1 Jeremias 7:4.

2 S. Mateus 24:1-2.

3 Daniel 1:1-2.

4 II Reis 24:12-13.

5 II Reis 25:13-17.

6 Esdras 1:11.

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antes, tinha popularmente o nome de “Bel”, o “Senhor”. A Bíblia alude a êste supremo deus babilônio com os nomes de “Bel-Nebo” e “Bel-Merodach”. 1 Seu principal templo chamava-se “Esagila”. Documentos cuneiformes babilônicos freqüentemente mencionam “os tesouros de Esagila”, o grande templo de “Marduk”. Neste mais famoso templo de Babilônia, depositara Nabucodonosor os vasos trazidos do templo de Jerusalém. Assim foi pilhado o grande templo da Judéia de tudo quanto tinha e também queimado e arrazado. 2 Além de confiarem na estrutura do templo, — o haviam profanado, pela introdução de ídolos pagãos no mesmo. Assim, permitiu Deus que os sagrados vasos fossem profanados por mãos pagãs e deixou serem levados como troféus do vencedor para Babilônia. Ficou demonstrado que o templo, em si mesmo, não tinha valor e sim o culto que nêle era efetuado como simbolismo do plano da redenção de Deus. E, já que êles não prezavam o que era importante, o edifício seria destruído, como o foi, e seus vasos saqueados totalmente, ficando privados dêles até depois do cativeiro de setenta anos, quando reconstruiriam o templo e os receberiam de volta.

A UNIVERSIDADE DE BABILÔNIA

VERSOS 3-5: — “E disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxessem alguns dos filhos de Israel, e da linhagem real e dos nobres, mancebos em quem não houvesse defeito algum, formosos de parecer, e instruídos em toda a sabedoria, sábios em ciências, e entendidos no conhecimento, e que tivessem habilidade para viverem no palácio do rei, a fim de que fossem ensinados nas letras e na língua dos caldeus. E o rei lhes determinou a ração de cada dia, da porção do manjar do rei, e do vinho que êle bebia, e que assim fossem criados por três anos, para que no fim dêles pudessem estar diante do rei”.

MARAVILHOSO PLANO DO REI NABUCODONOSOR

Ao galgar o trono de Babilônia o rei Nabucodonosor era ainda jovem. O comêço do seu reinado foi marcado por uma série de conquistas em que numerosos povos da Ásia Ocidental foram levados em cativeiro para o oriente, incluso o povo judeu. Muito dêsse

1 Isaías 46:1; Jeremias 50:2.

2 Jeremias 52:13-23.

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material humano, a seu ver, era por demais precioso, e desejou aproveitar o melhor dêle no crescimento e estabilização de seu reino mundial. Daria isto mais confiança ao seu govêrno em meio às províncias de seu grande império, tão variadas em idiomas e costumes. Também haveria mais ordem e mais respeito à sua majestade, pois todos aplaudiriam sua sábia resolução de ter em sua corte pelo menos um representante de cada nação vassala. O sonho do rei mencionado no capítulo quatro, revelou a perfeita unidade mundial de seu império e a dependência de todos os povos da sábia administração de sua côrte.

UNIVERSITÁRIOS ESCOLHIDOS

O que mais impressionou e até apaixonou o soberano de

Babilônia, foi a numerosa juventude cativa, oriunda de tantos países. Teve em grande conta aquela mocidade estrangeira para êle brilhante, e descobriu dentre ela grandes e raros talentos que desejou empregá- los em sua nova administração. Pelo que se depreende do sacro relatório, o rei Nabucodonosor anelou substituir aquelas mentes encanecidas da velha administração de seu pai Nabopolasar, por mentes jovens, intactas, capazes de são raciocínio, de grande visão, de elevado idealismo — em contraposição ao arcaico conservadorismo da côrte que herdara e que não era próprio ao novo impulso que pretendia dar ao reino em todo o sentido do crescimento nos ramos das ciências, letras, artes, indústrias, comunicações e em especial na administração real que deveria ser sábia, prudente e corresponder às necessidades duma dominação tão vasta e tão complexa. O grande monarca, entretanto, desejou jovens selecionados para o ajudarem em funções administrativas de grandes responsabilidades. A seu desejo deviam proceder de linhagem nobre e real das cortes de países conquistados, e que fossem formosos de parecer e sem quaisquer defeitos físicos. O rei fêz questão de frisar a Aspenaz, a quem encarregara da seleção, que deviam ser jovens inteligentes e cultos — “em toda a sabedoria, sábios em ciência, e entendidos no conhecimento, e que tivessem idoneidade para viverem no palácio do rei”, ou ali se desincumbirem de altas funções. Esta juventude principesca devia ser, uma espécie de “reféns”, para garantir a perfeita obediência às promessas e tratados dos reis de cujos países

procederam, ao govêrno central conquistador.

O OBJETIVO DA UNIVERSIDADE DA CÔRTE

A fim de serem capacitados para elevados postos no reino

deveriam os escolhidos jovens cursar por três anos a universidade da

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côrte e serem diplomados “nas ciências e letras dos caldeus”, e estarem assim aptos para honrarem a corte e bem representarem o cêtro caldeu perante seus numerosos vassalos. Segundo a vontade do rei, a juventude universitária não cursava a universidade ùnicamente para ser admitida em palácio, mas para que lhe fôsse facultada a aquisição dum melhor desenvolvimento físico e mental e também gozar do privilégio de participar da mesa real como um grato favor do grande rei do mundo.

O CARDÁPIO DA UNIVERSIDADE DA CÔRTE

Por determinação do rei Nabucodonosor, os estudantes da universidade deveriam participar da farta mesa real durante todo o

curso de três anos. Dita mesa era consagrada aos deuses de Babilônia

e parte de suas iguarias era levada aos seus altares para ser por êles especialmente abençoada. Ao participarem os estudantes de sua mesa

consagrada aos deuses, pretendeu o rei, sinceramente, vê-los alcançar

o

máximo desenvolvimento físico e mental pela bênção dos deuses —

e

serem por isso mesmo bem sucedidos em seus estudos. Além disso,

dando-lhes uma mesa considerada sagrada, quis o monarca expressar

o seu favor e solicitude pelo bem-estar dêles todos. Foi êste o primeiro passo do rei para levar os universitários estrangeiros a encarar com favoritismo os deuses de Babilônia e esquecer os de sua nação de origem. Os postos oficiais da famosa côrte para os quais ia ser preparada parte daquela nova juventude conquistada, estavam reservados, com possíveis raras excessões, somente a adoradores confessos de seus vitoriosos deuses, pois só a tais poderia ela dispensar, bem como merecer, a absoluta e inteira confiança que carecia como senhora de tão vastos domínios. Assim tudo iria bem no mundo babilônico de então. Êste primeiro passo do monarca, como vimos, era deveras a sua primeira interferência no que respeita à consciência de seus futuros cortesões em matéria de religião. Não ignorava Satanás que agora estava ali no Oriente e mesmo na côrte mundial de Babilônia, um povo cuja consciência exigia a adoração exclusiva de Jeová, o Deus vivo, o Deus de Israel, — que êle bem sabia ser o Único verdadeiro Deus. Portanto, preocupado com a influência que êstes fiéis adoradores de Jeová teriam naquela côrte e seu vasto império, procurou fazer alguma coisa para a todo custo quebrar aquela benéfica

influência e manter sua satânica inspiração. E viu o maligno que o método eficaz seria obrigar as consciências a se curvarem em

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reverência e adoração aos falsos deuses. E só o soberano do trono teria, a seu ver, o poder de obrigar e exigir com êxito servidão dos deuses protetores do reino. Tudo, porém, começou com a mesa real — ou com o apetite — para depois tornar-se uma questão de rígidos decretos-leis, como deparamos na adoração da estátua imperial de ouro, do capítulo terceiro. Quando Nabucodonosor ordenou a Aspenaz que selecionasse jovens das nações conquistadas, a fim de alguns serem preparados para a sua côrte, fêz questão de apontar em especial os judeus, conforme atestam os versos três e quatro. Demonstrou o rei confiança neste povo e conhecer a sua sabedoria como superior à de outros povos, mesmo a despeito de ter sido tratado por seus três últimos monarcas que por conquista os transformara em vassalos. Contudo, como os demais jovens doutras nações, deviam ser também de linhagem principesca — real e nobre. Como era de seu grande anélo, nesta raça e nesta juventude repousou a esperança do rei concernente à representação e prosperidade de sua côrte no mundo submetido à sua soberania. Em tudo isto vemos as providências de Deus em fazer-se representar naquela grande côrte mundial através de seus escolhidos, e por fim em tôda a terra pela influência dêles ali exercida. “O fato de êsses homens, adoradores de Jeová, estarem cativos em Babilônia, era orgulhosamente citado pelos vencedores como evidência que sua religião e costumes eram superiores à religião e costumes dos hebreus. Embora por intermédio da própria humilhação que Israel chamara sobre si por haver-se afastado de Deus, Êle dera aos babilônios a prova de Sua supremacia, da santidade dos seus reclamos e dos resultados certos da obediência. E êste testemunho Êle deu, como unicamente poderia ser dado, por meio daqueles que Lhe foram leais. “Entre os que se mantiveram obedientes a Deus estavam Daniel e seus três companheiros — nobres exemplos do que os homens podem tornar-se quando unidos com o Deus de sabedoria e poder. Da comparativa simplicidade de seu lar judaico, êsses jovens de linhagem real foram levados à mais magnificente das cidades, e introduzidos na côrte do maior monarca do mundo”. Na providência de Deus, Daniel e seus companheiros foram levados ao cativeiro como condutos às nações pagãs das bênçãos que advêm à humanidade pelo conhecimento de Deus. Principalmente através de Daniel, acendeu Deus uma grande luz ao lado do trono do

1

1 Profetas e Reis, E. G. White, págs. 479, 480.

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maior reino do mundo, para que todos pudessem aprender do Deus vivo e verdadeiro. “Assim como Deus chamou a Daniel para testemunhar d’Êle em Babilônia, também nos chama a nós para sermos Suas testemunhas no mundo hoje em dia. Deseja que revelemos aos homens os princípios do Seu reino, tanto nos menores como nos maiores afazeres da vida”. 1

NOVOS NOMES AOS UNIVERSITÁRIOS HEBREUS

VERSOS 6-7: — “E entre eles se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias. E o chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel pôs o de Belteshazzar, e a Hananias o de Sadrach, e a Misael o de Mesach, e a Azarias o de Abed-nego”.

UMA VÃ ESPERANÇA DO REI

Lamentàvelmente foram encontrados apenas quatro jovens hebreus dignos das responsabilidades que o rei tinha em vista aos cativos de Judá. Certamente o soberano ficou decepcionado e apreensivo. Veria êle, porém, que a qualidade e não a quantidade, é que é o importante. Veria, para alegria sua, que aqueles quatro raros caracteres valiam por uma multidão. E a história revelou isto mesmo. Foram êles inestimável bênção naquela côrte e naquele reino. Haverá, hoje, jovens cristãos de caráter puro e santo como aqueles quatro jovens? Naqueles dias só quatro foram achados. Nos dias dos Faraós um apenas fora descoberto — José. É de temer a raridade de tais caracteres em nosso corrompido século e em meio a um cristianismo tão afastado e tão desvirtuado dos fundamentos originais do evangelho de Cristo. Os quatro baluartes do direito e da justiça eram Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Josefo diz que êstes quatro jovens eram parentes do rei Zedequias — último rei da Judéia. 2 Seus nomes eram simbólicos de suas amistosas relações com Deus e de sua incondicional devoção a Êle. O propósito de Aspenaz, a pedido do rei, trocando-lhes os nomes por outros que os relacionassem com os deuses de Babilônia, era que, ao se adaptarem a êles, abjurariam o Deus de Israel e adorariam os do Império. Os novos nomes eram também u’a marca de autoridade imposta aos escravos. O nome de Jeová, no Egito, foi mudado por

1 Parábolas de Jesus, E. G. White, pág. 357.

2 Josefo, livro X, cap. XI, n.° 428.

ARACEL I S. MEL LO

Faraó p ara “ Za phnath-P aneah” ( Salvador (Murta), para Es ter (Estr êla), na P érsia. 1 A

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1 Gên esis 41:45; Es ter 2:7.

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

viessem da mesa do rei”. A menos que haja firmeza de coração na decisão, haverá seguro fracasso. Mas para Daniel e seus companheiros, o vocábulo fracasso não existia. Não se “contaminar” ou não se “sujar” com a imunda e idólatra mesa real, foi o primeiro passo para a verdadeira grandeza que demonstraram como cristãos perante o mundo babilônico. Esta sublime decisão — não se contaminar, não se sujar — é a grande lição para todo o jovem que anêla a vitória espiritual sôbre o pecado. Todo aquêle que participasse da mesa do rei consagrada à idolatria, “seria considerado como estando a oferecer homenagens aos deuses de Babilônia. A tal homenagem a lealdade de Daniel e seus companheiros a Jeová lhes proibiu de participar. A simples simulação de haver comido o alimento ou bebido o vinho seria uma negação de sua fé. Proceder assim era enfileirar-se ao lado do paganismo e desonrar os princípios da lei de Deus. “Não ousaram êles a se arriscarem ao enervante efeito do luxo e dissipação sôbre o desenvolvimento físico, mental e espiritual. Êles estavam familiarizados com a história de Nadabe e Abiú, de cuja intemperança e seus resultados foi conservado o registro nos pergaminhos do Pentateuco; e sabiam que suas próprias faculdades físicas e mentais seriam danosamente afetadas pelo uso do vinho. “Daniel e seus companheiros tinham sido educados por seus pais nos hábitos da estrita temperança. Tinham sido ensinados que Deus lhes pediria contas de suas faculdades, e que jamais deveriam diminuí- las ou enfraquecê-las. Esta educação fôra para Daniel e seus companheiros o meio de sua preservação entre as desmoralizantes influências da côrte de Babilônia. Fortes eram as tentações que os rodeavam nessa corte corrupta e luxuosa, mas êles permaneceram incontaminados. Nenhuma fôrça, nenhuma influência poderia afastá- los dos princípios que tinham aprendido no limiar da vida mediante o estudo da Palavra e obras de Deus. “Tivesse Daniel desejado e teria encontrado em tôrno de si escusas plausíveis para afastar-se dos estritos hábitos de temperança. Êle poderia ter argumentado que, dependendo como estava do favor do rei e sujeito ao seu poder, não havia outro caminho a seguir senão comer do alimento do rei e beber do seu vinho; pois se se apegasse ao ensinamento divino, ofenderia o rei, e provàvelmente perderia sua posição e a vida. Se transgredisse o mandamento do Senhor, êle reteria o favor do rei, e asseguraria para si vantagens intelectuais e lisonjeiras perspectivas mundanas.

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“Mas Daniel não hesitou. A aprovação de Deus era-lhe mais cara que o favor do mais poderoso potentado da Terra — mais cara mesmo que a própria vida. Êle se determinou permanecer firme em sua integridade, fôssem quais fossem os resultados. Êle assentou no seu coração não se contaminar com a porção do manjar do rei, nem com o vinho que êle bebia. E nesta resolução foi apoiado por seus três companheiros. “Tomando esta decisão, os jovens hebreus não agiram presunçosamente, mas em firme confiança em Deus. Não escolheram ser singulares, mas sê-lo-iam de preferência a desonrar a Deus. Tivessem êles se comprometido com o erro nêste caso rendendo-se à pressão das circunstâncias, e este abandono do princípio ter-lhes-ia enfraquecido o senso do direito e sua capacidade de aborrecer o êrro. O primeiro passo errado tê-los-ia levado a outros, de maneira que, cortada sua ligação com o Céu, êles seriam varridos pela tentação”. 1 Aí está o que significa ser um verdadeiro e devotado cristão. Dois fatores importantes e vitais caracterizaram a vida de Daniel e seus companheiros como religiosos e constituem ainda hoje princípios que regem a vida espiritual e material aceitável a Deus: A recusa do falso culto por ser falso e do regimem dietético mau por ser mau. Quem assim procede ganhará a vitória com Deus.

O GRANDE EXEMPLO É REJEITADO

Lamentàvelmente a nossa geração está em carência de religiosos como Daniel e seus companheiros. O evangelho, base da vida física e espiritual, foi relegado a um canto. Centenas de credos anti-cristãos navegam o século XX no barco das tradições dos apóstatas, que abjuraram todo o fundamento das Sagradas Escrituras de Deus. Eis um mundo religioso nominal que guerreia constante e abertamente a lei moral do Decálogo de Deus e as leis naturais apontadas no evangelho de Cristo para o bem e felicidade de Seus seguidores. Mas de modo algum Deus aceitará como servos Seus aqueles que dÊle pretendem se aproximar fora dos princípios fundamentais da religião que vem do céu e liga o arrependido pecador ao Todo-poderoso e Santo Deus. Daniel e seus companheiros são hoje ainda verdadeiros exemplos. Porém, são inaceitáveis pelos relapsos modernos cristãos como caracteres cristãos dignos de imitação. Muito daqueles quatro hebreus

1 Profetas e Reis, E. G. White, págs. 481-483.

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é falado, escrito e pregado; mas na prática são postos de lado como

modêlos antiquados aos moderníssimos e cristianíssimos religiosos do século. Todavia, nenhum cristão está apto para o reino de Cristo a menos que seu caráter se identifique ao de Daniel e seus três companheiros, cujas vidas foram em todo o sentido honrosas a Deus e por Êle aprovadas enquanto êles viverem. Mas o segrêdo da vitória consiste numa positiva decisão como tomada por Daniel e os outros três jovens: Assentar no coração não se contaminar, não se sujar com o falso culto e com o falso apetite. Sem que esta acertada decisão seja sancionada pelo coração, a derrota e a perda da salvação serão inevitáveis. Todo o cristão moderno que desejar vêr aqueles quatro jovens no futuro, deverá imitá-los como verdadeiros cristãos que souberam viver o cristianismo puro em meio à corrupção de Babilônia. A experiência daquêles quatro hebreus cristãos constitue, em todo

o tempo, um alto exemplo de genuína temperança ligada à fé cristã.

Abstêmios completos de todo o ingrediente sólido ou líquido prejudicial à saúde física, conservaram o corpo como um templo santo, puro e vivo em honra de Deus. Dificilmente encontraremos hoje cristãos similares. A intemperança tem tomado conta dos chamados cristãos de nossa geração, que deviam ser verdadeiros representantes de Deus, de Cristo e de Suas leis moral, sanitária e dietética sábias e justas. O mundo chamado cristão e as nações pretensamente cristãs estão afogados no alcoolismo, chafurdados em tôda classe de degradantes vícios e mergulhados numa glotonaria destruidora da vitalidade do corpo. Viessem Daniel, Hananias, Misael e Azarias ao mundo hoje, ficariam abismados em vêr como os cristãos da hodierna civilização vivem tão afastados das sagradas normas e princípios do cristianismo original estabelecidos por Seu próprio fundador.

“MENS SANA IN CORPORE SANO”

Aqueles que fazem profissão de fé e se definem pela justiça que procede do céu, serão conhecidos entre os homens como perfeitos templos vivos de Deus, nos quais Êle é adorado através o verdadeiro culto do evangelho e as altas normas inspiradas do viver sadio são exemplificadas. Não se contaminar, era a ordem do dia proclamada por Daniel e seus fiéis companheiros. Esta é a principal lição de tôda a parte histórica de seu livro. É a primária, a vital, a indispensável qualificação para o alto serviço de Deus. 1 Os quatro conservaram-se

1 Isaías 52:11; II Corintios 6:14-18.

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puros da poluição da carne e da alma em não participar da imunda e idolatra mesa do rei Nabucodonosor. Por se conservarem fisicamente limpos pela não participação duma alimentação impura, embora oriunda do palácio real, os quatro jovens mantiveram pura a mente e o espírito, o que é ainda mais importante. Pois assim preservaram-se da má consciência para com Deus, dos corrompidos princípios da desobediência às leis do céu, de compromissos que seguramente teriam reduzido a fôrça moral e embrutecido a vontade, dissipado a coragem e obscurecido a visão. A pureza do corpo será a medida da pureza da mente e do espírito

e o debilitamento do corpo implica em debilitamento de ambas estas

faculdades e do coração. A máxima: “Mens sana in corpore sano”, —

é evidência indiscutível de que a saúde ao corpo é essencial à saúde da

mente, do espírito e do coração. Alguém dirá: “Que tem que vêr religião com dietética?” “O que dissémos acima já contém a resposta clara. Porém, dizemos ainda mais: Ninguém com u’a mente e um espírito envenenadas por um regimem dietético desequilibrado e impuro terá uma visão límpida para discernir corretamente o dever para com Deus e executá-lo com inteira submisão e alegria. Um regimem alimentar constante de elementos impuros, nocivos, estimulantes e deprimentes, afeta e contamina a mente e o espírito amplamente e priva o coração do homem da comunhão voluntária e indispensável com Deus. Daí o regimem da comunhão voluntária e indispensável com Deus. Dai o regimem alimentar original dado pelo Creador a Seus filhos ser o único que os poderá conservar fisicamente limpos para terem clareza de mente e discernimento correto e jamais esquivarem-se ao dever que os liga ao céu. A máxima de Hipócrates, o mais ilustre médico da antiguidade (5.° séc. a.C.), em questões dietéticas, era e ainda é está: “Seja o teu alimento o teu medicamento”. Em outras palavras, ensinou Hipócrates que a alimentação deve ser um remédio salutar ao físico, e então o será também à mente e ao espírito. Alimentar o organismo significa prover-lhe o melhor alimento, o mais racional, sadio, puro, isento de substâncias tóxicas e estimulantes. Um cardápio diário que mantenha límpida a corrente sanguínea e contribua para que a visão intelectual não seja obstruída mas mantida com evidente correção. Daniel conhecia o segredo duma vida saudável e consequentemente longa. Além de tudo, sua fidelidade em manter-se puro dentro das normas do bom viver, — visou enaltecer a Deus e os

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divinos princípios ligados à vida. Sàbiamente enfrentou de uma vez o problema dietético da universidade de Babilônia e ganhou a batalha na primeira escaramuça com o inimigo na terra de seu cativeiro. Êle defendeu imediatamente a supremacia do dever sôbre a do interêsse próprio, da obediência sôbre a do perigo, da fé sôbre a do mêdo, do temor a Deus sôbre a dos costumes deturpantes da época, do espírito sôbre a do corpo, da diéta pura sôbre a do apetite pervertido, e, acima de tudo, — da supremacia de Deus sôbre a do homem. Se Daniel e seus três companheiros se esquivassem desta batalha, tê-la-íam perdido incontinente sem nela entrarem, e os séculos futuros jamais teriam lido deles as grandes coisas que têem lido e sabido. Mas êles determinaram firmemente vencer a primeira batalha para não serem vencidos por ela e as demais que se seguiriam. O triunfo sôbre o primeiro obstáculo abriu caminho para o triunfo sôbre os demais. Vitoriosos na terra do cativeiro, cumpriram à risca o grande propósito de Deus que era dar às nações pagãs o conhecimento de Jeová — o Deus vivo.

URGE ACATAR O EXEMPLO

“A vida de Daniel é uma inspiradora ilustração do que constitue um caráter santificado. Apresenta uma lição para todos, e especialmente para os jovens. Uma estreita submissão aos requerimentos de Deus é benéfica à saúde do corpo e do espírito. Afim de alcançar o mais elevado padrão de moral e conhecimentos intelectuais, é necessário buscar sabedoria e fôrça de Deus, e observar estrita temperança em todos os hábitos da vida. Na experiência de Daniel e seus companheiros temos um exemplo do triunfo do princípio sôbre a tentação para ceder ao apetite. Mostra-nos que através de princípios religiosos os jovens podem triunfar sôbre a concupiscência da carne, e permanecerem leais aos reclamos de Deus, ainda que isto lhes custe um grande sacrifício”. 1 “Muitos há entre os professos cristãos hoje que pretendem que Daniel era demasiado particular e declaram-no estreito e fanático. Êles consideram a matéria de comer e beber como de diminuta importância para requerer uma decisiva defesa, — que envolva provável sacrifício de tôda a vantagem terrena. Mas aqueles que assim arrazoam acharão no dia do juízo que se afastaram dos expressos requerimentos de Deus, e exaltaram suas opiniões próprias como padrão de justiça e

1 Fundamentals of Christian Education, E. G. White, pág. 80.

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injustiça. Êles compreenderão que aquilo que lhes pareceu sem importância não era assim estimado por Deus. Seus requerimentos deviam ser inviolàvelmente obedecidos. Aqueles que aceitam e obedecem um de Seus preceitos por ser conveniente fazer, enquanto regeitam a outros porque sua observância requer um sacrifício, abaixam o padrão da justiça e por seu exemplo levam outros a considerar levianamente a santa lei de Deus, “Assim diz o Senhor” deve ser a nossa regra em tôdas as coisas”. 1 “Daniel e seus companheiros tinham sido fiélmente instruídos nos princípios da palavra de Deus. Haviam aprendido a sacrificar o terrestre pelo espiritual, a buscar o mais alto bem. E colheram a recompensa. Seus hábitos de temperança e seu senso de responsabilidade como represantentes de Deus, reclamavam o mais nobre desenvolvimento das faculdades do corpo, da mente e da alma”. 2 “Para Daniel, o temor do Senhor era o princípio da sabedoria. Êle estava colocado em uma posição onde era forte a tentação. Na côrte do rei, a dissipação imperava em todos os lados; a indulgência própria, a gratificação do apetite, a intemperança e a glotonaria, eram a ordem do dia. Daniel podia comungar nas debilitantes e corrutoras práticas dos cortesões, ou podia resistir a influência que tendia para baixo. Êle escolheu o último procedimento. Propôs em seu coração que não seria corrompido pelas pecadoras indulgências com as quais êle fôra levado em contacto, fossem quais fôssem as conseqüências”. Que a juventude cristã do século atual tome em conta o exemplo daqueles quatro jovens, ou então porá em risco sua salvação. Aquêle quarteto da fé ainda constitue o exemplo duma juventude possuída pela devoção; duma juventude honrada pela devoção; duma juventude útil pela devoção. E é isto mesmo que Cristo espera de cada jovem que toma sôbre si o Seu nome e com Êle espera reinar em Seu glorioso reino de eterna felicidade e amor.

ASPENAZ EM APUROS

VERSOS 9-10: — “Ora deu Deus a Daniel graça e misericórdia diante do chefe dos eunucos. E disse o chefe dos eunucos a Daniel:

Tenho medo do meu senhor, o rei, que determinou a vossa comida e a vossa bebida; porque veria êle os vossos rostos mais tristes do que os

3

1 Fundamentals of Christian Education, E. G. White, pág. 78.

2 Educação, E. G. White, pág. 55.

3 Fundamentals of Christian Education, E. G. White, pág. 86.

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dos mancebos que são vossos iguais? assim arriscareis a minha cabeça para com o rei”.

GRAÇA E MISERICÓRDIA EM AÇÃO

No versículo oito vimos que Daniel não só assentou no coração não se contaminar com uma alimentação imprópria, nociva e idólatra, como também se esforçou por não tocá-la. Êle solicitou e Aspenaz o privilégio de não se contaminar e sua solicitação foi recebida com respeito. O desejo sem ação para convertê-lo em evidência, redunda em nada. Todavia aqui está um jovem esforçando-se e fazendo o seu melhor para manter-se leal a Deus e Suas leis. Um jovem cuja fidelidade é ainda hoje admirável e digna de imitação por todo o jovem dêste derradeiro final da civilização. Deus anéla ajudar a juventude que, como Daniel e seus companheiros, se propõe a zelar as coisas sagradas e dispensar-lhes inteira acatação, respeito e obediência. A bênção do Senhor só desce do céu sôbre aqueles que a anélam e a buscam através um decisivo esforço por obtê-la. “Inabalável em sua aliança para com Deus, intransigente no domínio de si próprio, a nobre dignidade e delicada deferência de Daniel ganharam para êle em sua mocidade o “favor e terno amor”, do oficial gentio a cargo do qual êle se achava”. 1 Porém, o versículo nove enfatiza que a simpatia de Aspenaz foi devida ao maravilhoso auxílio de Deus em favor de Daniel. O Senhor influênciou Aspenaz para que olhasse com simpatia a Seu fiel servo bem como a seus companheiros. Vê-se que o esforço divino só advém para cooperar com o esforço humano, nunca, porém, para substituí-lo. Só depois que o esfôrço humano se torna evidente, é que o esforço divino surge para fortalecê- lo e concretizar-lhe a vitória. Com os dois esforços conjugados, Satanás levou a pior e Deus foi glorificado e honrado por seus servos, sedentos por ser-Lhe leais. A despeito da amabilidade de Aspenaz, hesitou êste não obstante em aquiescer diretamente ao pedido de Daniel. Temeu o desagrado do rei. O monarca, dissera Aspenaz, veria a desfavorável diferença comparando-os com os demais que participavam de sua mesa real, e o culparia pela falta. O cardápio dos universitários era uma determinação do rei, e êle se não o executasse in totum, exporia sua própria cabeça. Verificamos claramente que o rei Nabucodonosor fazia periodicamente um exame físico do corpo estudantil ou pelo menos procurava ver os universitários em conjunto para certificar-se

1 Educação, E. G. White, pág 55.

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de como passavam. Com isto revelou Aspenaz o temor que inspirava o rei Nabucodonosor. Uma ordem sua ou seria cumprida ou resultaria fatal se negligenciada. O monarca era absoluto e não admitia desacato às suas ordens e decisões. Qualquer oposição à sua vontade era considerada sabotagem e portanto obra de adversário, urgindo justiçar incontinente o intruso operante. E Aspenaz estremeceu ante o pedido de Daniel, enquanto foi cortez para com êle e seus companheiros. Mas Daniel não desanimou. A fé não baqueia diante dos obstáculos sejam quais forem. Dela dissera mais tarde São João, o apóstolo amado: “E esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé”. 1 Assim a fé já é uma vitória. O seu possuidor será infalivelmente vitorioso enquanto sob sua influência. Daniel não temeu; pois não só não era um crente tremente, como já concebera o triunfo à vista — pelo evidente divino auxilio de Deus conjugado com o seu esforço humano.

A FÉ NÃO RETROCEDE

Daniel não discutiu o caso com Aspenaz procurando persuadi-lo a atendê-lo. O caso carecia de muito tato e êle foi muito prudente. O servo de Deus não foi precipitado, mormente quando procurava pôr as coisas em ordem afim de manter sua lealdade a Êle. Procurou então ao “dispenseiro”, Melzer — oficial a cujo cargo especial estava êle e seus companheiros. Parece vermos aqui algo notável: Os quatro hebreus estavam particularmente a cargo dum homem especializado. O nome “Melzer” era aplicado a alguém encarregado de certas funções especiais, como neste caso a de “tutor”. Revela-se assim o fato de o rei depositar grandes esperanças nos quatro jovens judeus, o que é sumamente importante. Não é dito nada de seu especial interêsse particular por outros jovens estrangeiros também universitários. A jovens raros que eram Daniel e os outros três, deviam ser dispensados cuidados fora do normal, cuidados especializados. Quanto da mocidade cristã poderia, hoje, ser aproveitada com muita vantagem sôbre outros de mais idade em cargos chaves, se aos jovens fossem dispensados cuidados particulares como àqueles quatro moços em Babilônia! Muito dêsse precioso e talentoso material humano se perdeu e se perde por falta de visão e interêsse de desavisados dirigentes de organizações e nações modernas em malhar talentos novos, raros e aproveitáveis com sucesso.

1 I S. João 5:4.

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Com muita cautela suplicou Daniel a Melzer fossem eles escusados de participar da mesa do rei. Não temos evidentemente um relatório completo da exposição que Daniel fez a êste oficial e a Aspenaz, como justificativa da deliberação que tomaram em

absterem-se da alimentação real. Porém, a informação que possuimos

é mais que suficiente para divisarmos o denodado esfôrço daqueles

jovens cristãos da antiguidade afim de não violarem a expressa vontade de Deus contida em Suas leis. E isto tudo é mais importante do que simplesmente lermos a história dêstes heróis. Se não os imitarmos seguindo o glorioso exemplo que nos legaram, jamais os veremos no reino de Deus onde êles indubitavelmente estarão por tôda

a eternidade.

UM PLANO PARA SER FIEL

VERSOS 11-16: — “Então disse Daniel ao dispenseiro a quem o chefe dos eunucos havia constituído sôbre Daniel, Hananias, Misael e Azarias: Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias, fazendo que se nos dêem legumes a comer, e água a beber. Então se veja diante de ti

o nosso parecer, e o parecer dos mancebos que comem a porção do

manjar do rei, e, conforme vires, te hajas com os teus servos. E êle conveio nisto, e os experimentou dez dias. E, ao fim dos dez dias,

apareceram os seus semblantes melhores; êles estavam mais gordos do que todos os mancebos que comiam porção do manjar do rei. Desta sorte, o dispenseiro tirou a porção do manjar dêles, e o vinho que deviam beber, e lhes dava legumes”. A Melzer apresentou Daniel um notável plano. Sugeriu-lhe uma prova de dez dias em os quais somente lhes desse “legumes”‘ e “água”, e, no término do pequeno prazo, que os comparasse com os demais que participavam da mesa real. Foi um plano de fé genuína! “A palavra hebráica zeroim, que aqui se traduz por legumes, leva em sua construção a mesma raiz que a palavra ‘semente’ empregada no relato de Gênesis referente à criação, onde se menciona “tôda a

herva que dá semente”, e também o “fruto de árvore que dá semente”. 1 Isto indica claramente que a petição de Daniel incluía cereais, legumes

e frutas. Além disso, se compreendemos corretamente Gênesis 9:3, as

“hervas” estavam incluídas também na alimentação pedida. Em outras palavras, o menú que Daniel pediu e obteve se compunha de cereais,

1 Gênesis 1:29.

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legumes, frutas, noses, e verduras, quer dizer que era uma alimentação vegetariana variada, acompanhada da bebida universal para os homens e os animais: a água pura. “A Bíblia Anotada de Cambrigde contém a seguinte nota acêrca de zeroim: “Alimentação vegetal em geral; não há motivo para crer que a palavra hebraica usada se limita às leguminosas como os feijões

e às ervilhas designadas apropriadamente pela expressão “legumes”.

Gesênio dá esta definição: “Sementes, ervas, verduras, vegetais; isto é alimento vegetal, como o que se consome quando se jejua a meias, em oposição às carnes e as viandas mais delicadas”. 1

É admirável o esforço daquêles quatro fiéis baluartes da fé em

procurar a todo custo manterem-se fiéis ao verdadeiro e saudável regimem dietético indicado por Deus já na aurora do mundo. Mas, quanta violação e descaso aberto destes princípios no mundo cristão moderno pelos mais amantes dum apetite pervertido que das justas leis naturais do Creador! Daí tanto sofrimento como causa direta da recusa das leis divinas. Mas Daniel e seus companheiros não pertenciam a esta casta de apóstatas que, não obstante ostentarem o nome “cristão”,

vivem em rebeldia franca e decidida contra os estatutos inspirados de Cristo.

A PROVA CONVENCE MELZER

Melzer achou interessante o sugestivo plano de Daniel e conveio na experiência de dez dias. “Embora temeroso de que condescendendo com êste pedido pudesse incorrer no desagrado do rei, consentiu não

obstante; e Daniel sabia que sua causa estava ganha”. 2 E, para surpresa

e assombro de Melzer, a prova foi positiva. A diferença entre os

quatro e os demais que participavam das iguarias do rei fôra-lhe evidente. Na aparência pessoal os jovens hebreus mostraram marcada

superioridade sôbre seus companheiros. Assim, surprêso, admirado e convencido da superioridade do plano de Daniel sôbre o do rei, Melzer afastou-os definitivamente da mesa do soberano e consentiu continuarem com o cardápio simples que preferiram e que se demonstrara superior.

A bênção de Deus foi indiscutível em secundar os esforços de

seus amados. A vitória estava ganha. O plano dietético do Creador triunfou sôbre o plano dietético de Babilônia. O inimigo foi vencido

1 Las Profecias de Daniel y el Apocalipsis, Urias Smith, Tomo I, págs. 15-16.

2 Profetas e Reis, E. G. White, pág. 484.

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

por aqueles quatro valentes guerreiros de Deus na primeira batalha e o seria sempre até ao fim. A retumbante vitória daqueles verdadeiros cristãos é uma severa repreensão aos infiéis cristãos glutões do século XX, violadores desrespeitosos das leis naturais inspiradas relativas ao bom viver. Podem, porém, se reabilitarem e serem fiéis como Daniel e seus companheiros.

A BÊNÇÃO DE DEUS NOS ESTUDOS

VERSO 17: — “Ora, a êstes quatro mancebos Deus deu o conhecimento e a inteligência em tôdas as letras, e sabedoria; mas a Daniel deu entendimento em tôda a visão e sonhos”.

O DOM DE PROFECIA NA CÔRTE DO MUNDO

“Apegando-se Daniel a Deus com inamovível fé, o espírito de poder profético veio sôbre êle. Enquanto recebia instruções do homem nos deveres diários da côrte, estava sendo ensinado por Deus a ler os mistérios do futuro, e a registrar para as gerações vindouras, mediante figuras e símbolos, eventos que cobrem a história dêste mundo até o fim do tempo”. 1 O Dom de Profecia de que fôra Daniel investido, é o terceiro dom da graça concedido ao pecador separado diretamente de Deus. Em sua importância segue imediatamente aos dons do Filho de Deus e do Seu Espírito. Êsse dom é a comunicação entre Deus e o homem através de um instrumento chamado “profeta” dirigido pelo Espírito Santo. É o mais importante dom do Espírito Santo para guiar e edificar a Igreja de Deus na terra. 2 À luz dêsse glorioso dom tem o povo de Deus caminhado em tôda a sua história até ao presente. É por êsse precioso dom que o mundo tem, através da Igreja de Deus, recebido a gloriosa mensagem da redenção em Jesus Cristo. A Bíblia foi dada à humanidade mediante êsse divino dom, e é ela, portanto, a mensagem do dom da profecia ou da graça de Deus enviada aos habitantes da terra. Antes de Daniel, e depois dêle, dezenas de outros servos fiéis de Deus, os profetas — receberam o Dom de Profecia, para advertir e

1 Profetas e Reis, E. G. White, pág. 485.

2 I Coríntios 13:2; 14:3.

ARACELI S. MELLO

aconselhar a Igreja e o mundo. Segundo o livro do Apocalipse, capítulo doze versículo dezessete, a igreja de Deus, em pleno século XX, é aquela que guarda os mandamentos de Deus e possue o Dom de Profecia em seu meio. De posse do Dom de Profecia pôde Daniel desvendar grandes mistérios que puzeram em perplexidade o rei de Babilônia, bem como traçar os marcos simbólicos relativos aos principais acontecimentos da história em ligação com a marcha triunfal do povo de Deus até ao fim do tempo do fim. As profecias de seu livro resultantes dêsse dom, são as mais importantes do Velho Testamento, e completadas no Nôvo Testamento pelas profecias do Apocalipse dadas a São João através do mesmo inspirado Dom de Profecia. Os resultados de bem servir e honrar a Deus foram evidentes nos estudos daqueles jovens. As inestimáveis bênçãos de Deus fizeram daqueles moços os melhores alunos da universidade da côrte de Babilônia. A todos surpreenderam pela exuberante inteligência e sabedoria. E não pensem os jovens de hoje que Deus não tem o mesmo anélo em ajudá-los na aquisição de conhecimentos úteis de sabedoria honrosa ao céu. O segrêdo da recepção da bênção consiste na dedicação incondicional da vida a Deus, numa obediência sincera às suas leis — quer morais quer naturais.

O GRANDE EXAME FINAL

VERSOS 18-20: — “E ao fim dos dias, em que o rei tinha dito que os trouxessem, o chefe dos eunucos os trouxe diante de Nabucodonosor. E o rei falou com êles; e entre todos êles não foram achados outros tais como Daniel, Hananias, Misael e Azarias; por isso permaneceram diante do rei. E em tôda a matéria de sabedoria e de inteligência, sobre que o rei lhes fêz perguntas, os achou dez vêzes mais doutos do que todos os magos ou astrólogos que havia em todo o seu reino”.

UM MARCADO TRIUNFO

Finalmente chegou o grande dia do exame final após três anos de curso. Um só foi o catedrático examinador — o rei Nabucodonosor. Êste fato evidencia os talentes do rei, seus vastos conhecimentos em ciências e letras daquele tempo. Por outro lado parece que o monarca quis se certificar pessoalmente, em prova oral absoluta, do grau de cultura caldáica adquirido pelos universitários. Todavia o triunfo coube aos quatro fiéis de Deus — Daniel, Hananias, Misael e Azarias.

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

Êles sobrepujaram dez vêzes mais em sabedoria a tôdas as sumidades do reino. Os chamados sábios da corte se apagaram diante dêles. Nabucodonosor não se enganara com a sabedoria dos judeus —