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Ensino de Literatura Brasileira

2. A multiplicidade das práticas da leitura ao


longo da história e no presente
“Embora os críticos saibam percorrer a história literária [...], eles parecem
presumir que os textos sempre afetaram a sensibilidade dos leitores de uma
mesma maneira. Mas um habitante seiscentista de Londres vivia num
universo mental diferente do de um professor americano do século XX. A
própria leitura se transformou ao longo do tempo. Ela era frequentemente
feita em grupo e em voz alta, ou em segredo e com uma intensidade que
hoje talvez nem consigamos imaginar.” (Robert Darnton, “O que é a história
dos livros?”, O beijo de Lamourette, p.145)
“A primeira [tradição] é antiga e lê os textos ignorando seus suportes. Os textos
que se prestam a escrever a história são tomados como portadores de um
sentido que é indiferente à materialidade do objeto manuscrito ou impresso
através do qual ele se dá, constituído de uma vez por todas e identificável
graças ao trabalho crítico. Uma história do ler afirmará, contra esse postulado,
que as significações dos textos, quaisquer que sejam, são constituídas,
diferencialmente, pelas leituras que se apoderam deles. Daí, uma dupla
consequência. Antes de mais nada, dar à leitura o estatuto de uma prática
criadora, inventiva, produtora, e não anulá-la no texto lido, como se o sentido
desejado por seu autor devesse inscrever-se com toda a imediatez e
transparência, sem resistência nem desvio, no espírito de seus leitores. Em
seguida, pensar que os atos de leitura que dão aos textos significações plurais
e móveis situam-se no encontro de maneiras de ler, coletivas ou individuais,
herdadas ou inovadoras, íntimas ou públicas, e de protocolos de leitura
depositados no objeto lido, não somente pelo autor que indica a justa
compreensão de seu texto, mas também pelo impressor que compõe as
formas tipográficas, seja com um objetivo explícito, seja inconscientemente,
em conformidade com os hábitos de seu tempo.” (Roger Chartier, “Do livro à
leitura”, in: Práticas da leitura, p.78)
XI

Junto do leito meus poetas dormem


– O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron –
Na mesas confundidos. Junto deles
Meu velho candieiro se espreguiça
E parece pedir a formatura.
Ó meu amigo, ó velador noturno,
Tu não me abandonaste nas vigílias,
Quer eu perdesse a noite sobre os livros,
Quer, sentado no leito, pensativo
Relesse as minhas cartas de namoro!
Quero-te muito bem, ó meu comparsa
Nas doidas cenas de meu drama obscuro!
E num dia de spleen, vindo a pachorra,
Hei de evocar-te dum poema heroico
Na rima de Camões e de Ariosto,
Como padrão às lâmpadas futuras!
..........................................................

(Álvares de Azevedo, “Ideias íntimas”, Lira dos vinte anos, p.224-5)


XI

Junto do leito meus poetas dormem


– O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron –
Na mesas confundidos. Junto deles
Meu velho candieiro se espreguiça
E parece pedir a formatura.
Ó meu amigo, ó velador noturno,
Tu não me abandonaste nas vigílias,
Quer eu perdesse a noite sobre os livros,
Quer, sentado no leito, pensativo
Relesse as minhas cartas de namoro!
Quero-te muito bem, ó meu comparsa
Nas doidas cenas de meu drama obscuro!
E num dia de spleen, vindo a pachorra,
Hei de evocar-te dum poema heroico
Na rima de Camões e de Ariosto,
Como padrão às lâmpadas futuras!
..........................................................

(Álvares de Azevedo, “Ideias íntimas”, Lira dos vinte anos, p.224-5)


Pierre-Antoine Baudoin (1723-1769) – “La Lecture” (1760)
Guache sobre papel – Musée des Arts Décoratifs, Paris
“Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão
uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça
baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter
os soluços que rompiam-lhes o seio.
Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também
cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras de
consolo ás lamentações de minha mãe e suas amigas.
Nesse instante assomava à porta um parente nosso, o Padre Carlos Peixoto de
Alencar, já assustado com o choro que ouvira ao entrar. Vendo-nos a todos
naquele estado de aflição, ainda mais perturbou-se :
— Que aconteceu? Alguma desgraça? perguntou arrebatadamente.
As senhoras, escondendo o rosto no lenço para ocultar do Padre Carlos o pranto e
evitar os seus remoques, não proferiram palavra. Tomei eu a mim responder :
— Foi o pai de Amanda que morreu! disse mostrando-lhe o livro aberto.
Compreendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como ele as sabia dar,
verdadeira gargalhada homérica, que mais parecia uma salva de sinos a repicarem
do que riso humano. [...]” (José de Alencar, Como e porque sou romancista, maio
de 1873)
“Aos domingos a Rua do Fogo mostrava-se ainda mais sossegada, e o mar,
fronteiro, mais tranquilo e mais triste. Era para o mar que eu me voltava,
enquanto Papai vibrava com as alegrias e desgraças dos heróis dos
romances de Escrich, que lia para Seu Domingos e D. Marinheira,
sentados em círculo, os três, em cadeiras de braços, no alpendre.
Histórias longas de amor, em muitos volumes – casamentos de condes e
duques e príncipes com lindas raparigas pobres, ou vice-versa: casos
bastante complicados, que afinal se resolviam da melhor maneira – como
o leitor queria – porque meu Pai não terminava a leitura de um desses
livros sem exclamar o seu entusiasmo: ‘Isto é que é romance! Como acaba
bem! Não tem nada de Escrich que não seja bom’.
Uma das obras – lembra-me ainda: O manuscrito materno –, ao que dizia
Papai, era de fazer chorar as pedras.
Eu ouvia, sem escutar, pedaços das narrações. Às vezes, cartas – como as
lia meu Pai! – dolorosas, lancinantes, onde a paixão escaldava e havia
lágrimas de sangue...” (Aurélio Buarque de Holanda, “Dois mundos”,
Melhores contos, p.93)
“Passei a primeira noite praticamente acordado. O sofrimento do meu pai
não me deixava dormir. [...] No meio da noite, o outro paciente também
começou a resmungar. [...] Lá pelas dez da manhã, um rapaz entrou no
quarto, me deu bom-dia, cumprimentou o velho, puxou uma cadeira,
sentou-se ao pé do leito, tirou um livro de uma sacola e começou a ler.
Minha irmã ainda não tinha chegado. O rapaz lia em inglês. [...] Quando
terminou o conto, levantou-se, disse ao velho – que, como eu, o havia
escutado impassível por mais de duas horas – que voltava no dia seguinte,
despediu-se de mim com um gesto de cabeça e foi embora.” (Bernardo
Carvalho, Nove noites, p.127-8)
“– Mocinha, quem é o Terteão?
Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão fosse
homem. Talvez fosse. ‘Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém’.
– Mocinha, que quer dizer isso?
Mocinha confessou honestamente que não conhecia Terteão. E eu
fiquei triste, remoendo a promessa de meu pai, aguardando novas
decepções.” (Graciliano Ramos, “Leitura”, Infância, p.104)
“Abominei Camões. E ao Barão de Macaúbas associei Vasco da Gama,
Afonso de Albuquerque, o gigante Adamastor, barão também, decerto.”
(Graciliano Ramos, “O barão de Macaúbas”, Infância, p.123)

“Edição publicada pelo Dr. Abílio César Borges para uso das escolas
brasileiras; na qual se acham supressas todas as estâncias que não devem
ser lidas pelos meninos”. (apud Alfredo Bosi, “O ateneu, opacidade e
destruição”, p.38-9)
“Ora, uma noite, depois do café, meu pai me mandou buscar um livro
que deixara na cabeceira da cama. Novidade: meu velho nunca se
dirigia a mim. E eu, engolido o café, beijava-lhe a mão, porque isto era
praxe, mergulhava na rede e adormecia. Espantado, entrei no quarto,
peguei com repugnância o antipático objeto e voltei à sala de jantar.
Aí recebi ordem para me sentar e abrir o volume. Obedeci
engulhando, com a vaga esperança de que uma visita me
interrompesse. Ninguém nos visitou naquela noite extraordinária.”
(Graciliano Ramos, “Os astrônomos”, Infância, p.190)
“Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei.
Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena
medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas,
alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a
folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em
estrada cheia de buracos.” (“Os astrônomos”, Infância, p.190)
“Com certeza o negociante recebera alguma dívida perdida: no meio do
capítulo pôs-se a conversar comigo, perguntou-me se eu estava
compreendendo o que lia.” (“Os astrônomos”, p.191)

“E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia,


vacilante, nas trevas do meu espírito.
Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos e o lenhador agitaram-me o
sono. Dormi com eles, acordei com eles. As horas voaram. Alheio à escola,
aos brinquedos de minhas irmãs, à tagarelice dos moleques, vivi com
essas criaturas de sonho, incompletas e misteriosas.” (p.191)
“À noite, meu pai me pediu novamente o volume, e a cena da véspera
se reproduziu: leitura emperrada, mal-entendidos, explicações.
Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho
estava sombrio e silencioso. E no dia seguinte, quando me preparei
para moer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo.
[...] Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de
repente a maravilha se quebrasse.” (“Os astrônomos”, p.191-2)
“Confessei, pois, a Emília o meu desgosto e propus-lhe que me dirigisse a
leitura. Esforcei-me por interessá-la contando-lhe a escuridão na mata, os
lobos, os meninos apavorados, a conversa em casa do lenhador, o
aparecimento de uma sujeita que se chamava Águeda.
[...]
[...] Em conformidade com a opinião de minha mãe, considerava-me uma
besta. Assim, era necessário que a priminha lesse comigo o romance e me
auxiliasse na decifração dele.
Emília respondeu com uma pergunta que me espantou. Por que não me
arriscava a tentar a leitura sozinho?
Longamente lhe expus a minha fraqueza mental, a impossibilidade de
compreender as palavras difíceis, sobretudo na ordem terrível em que se
juntavam. Se eu fosse como os outros, bem; mas era bruto em demasia,
todos me achavam bruto em demasia.
Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos
que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. Não no céu onde
moram Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria. Esse ninguém tinha visto.
Mas o outro, o que fica por baixo, o do sol, da lua e das estrelas, os
astrônomos conheciam perfeitamente. Ora, se eles enxergavam coisas tão
distantes, porque não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos
meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e formar
palavras?
Matutei na lembrança de Emília. Eu, os astrônomos, que doidice! Ler as
coisas do céu, quem havia de supor?” (“Os astrônomos”, p.192-3)
“E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem,
a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador.
Reli as folhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam
escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam,
vagarosamente me penetravam a inteligência espessa. Vagarosamente.”
(“Os astrônomos”, Infância, p.193-4)

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