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En Inde, par exemple, «les formes nouvelles ne chassent pas les anciennes». Il y a plutôt «empilement stratifié». La marche du temps n’a pas besoin de se certifier par la mise en distance de «passés», pas plus qu’il n’est nécessaire à un lieu de se définir en se distinguant d’«hérésies». Un «procès de coexistence et de réabsor- tion» est au contraire le «fait cardinal» de l’histoire indienne. De même, chez les

bien loin d’être un ob-jet rejeté derrière soi pour qu’un

présent autonome devienne possible, c’est un trésor placé au milieu de la société qui

en est le mémorial, un aliment destiné à la manducation et á la mémorisation. (ibidem: 17; sublinhados nossos)

Merina de Madagascar, [

]

Outros haveria, vindos do «exterior da nossa historiografia», quanto a esses di- ferentes modos de relação com o tempo – «ou, o que é idêntico, [quanto a] uma outra relação com a morte» (ibidem: 18). Por exemplo, «nos Fô do Dahomey a história é remuo, ‘a palavra desses tempos passados’ – palavra (ho), quer dizer presença, o que vem a montante, e vai para jusante» (ibidem: 17-18). Dados que nos parecem funda- mentais, uma vez confrontados com aquilo que Michel de Certeau nos diz – no capí- tulo de L’ecriture de l’histoire reservado às «escritas de Freud» – a propósito dessa «ficção teórica» que, proposta pela psicanálise, dirá respeito a uma possível génese da escrita – aqui no sentido de uma sagrada «escritura» – nos ensaios sobre Moisés e o monoteísmo. Quanto mais não fosse porque, para o discurso psicanalítico, o presente traz necessariamente consigo o passado, em relação ao qual permanece indissociável, insuscetível de qualquer demarcação:

La fiction freudienne ne se prête pas à cette distinction spatiale de l’historiographie où le sujet du savoir se donne un lieu, le «présent», séparé du lieu de son objet, défini comme passé. Et des «niveaux» du texte aucun n’est le référent des autres. S’il y a méta-phore, elle caractérise un système de relations réciproques. Il n’y a pas d’élément stable qui arrête cette circulation et qui, en affectant à l’une des strates une valeur de «vérité», allouerait aux autres termes une fonction d’image, de substitut ou d’effet. (Certeau, 1975: 371)

Não se estaria, pois, já aqui no domínio da reconstituição genealógica, cuja lógica supõe o mesmo tipo de apropriação: essa ficção freudiana consagra: . Por outro lado, porque na sua diferença, a nossa historiografia se nutriria ainda de uma inadvertida filosofia heideggeriana, no que esta possuiria de mais reactivo e ontologicamente redutor:

O que se passaria, então, deste ponto de vista, em O Outro Pé da Sereia? Se, como nos diz Michel de Certeau:

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History after Modernism?

Before 1960, every work that claimed to be art was to deliver the proof by marking a new stage in art’s history. Thus, art was inevitably linked to art history, considered as its ever recurring law and temporal pattern. This former view soon conflited with another position, which only accepted art as a successful fiction, backed by art insti- tutions rather than by virtue of a particular history or individual success. For the same reason, it was soon impossible to speak of the end of art, since any end only happen within an established framework of history. What therefore was believed to end was that very concept of history which allowed an end to happen. (Belting, 2003a: 174; sublinhado nosso)

A sua invocação da performance de Hervé Fischer, em «A História de Arte na Arte Atual: despedidas e encontros» – texto fundamental de O Fim da História de Arte – assim como a sua referência a L’histoire de l’art est terminée – da autoria de Hervé Fischer – sublinhariam, justamente, este mesmo aspecto: «o fim da história de arte não significa, para a disciplina, o fim do seu tema, mas o possível fim de um con- ceito único e fixo de acontecimento artístico» (Belting, 2003b: 205; sublinhado nosso). Na «situação atual dos artistas», frisa o autor, eles «não se movem mais por um caminho retilíneo do desenvolvimento histórico», uma vez que são agora atraídos por «uma ciência da arte que não se reconhece mais [n]um modelo obrigatório para a apresentação do seu objeto» (ibidem). Arthur Danto – para quem é precisamente essa «diferença marcante entre a arte moderna e a arte contemporânea» (Danto, 2006: 6), que há-de estar em causa – dir-nos-á, por sua vez, quanto à forma pela qual a «arte contemporânea» se destaca da «arte moderna»:

A arte contemporânea, em contrapartida nada tem contra a arte do passado, nenhum sentimento de que o passado seja algo de que é preciso se libertar e mesmo nenhum sentimento de que tudo seja completamente diferente, como em geral a arte

da arte moderna. É parte do que define a arte contemporânea que a arte do passado

esteja disponível para qualquer uso que os artistas queiram lhe dar. [

do contemporâneo é o da colagem de Max Ernest, mas com uma diferença. Ernest disse que a colagem é «o encontro de duas realidades distantes em um plano estranho a ambas». A diferença é que não mais existe um plano estranho a realida- des artísticas distintas, nem são essas realidade tão distantes uma da outra. (ibidem: 7; sublinhados meus)

] O paradigma

Uma profunda mutação estaria, portanto, em curso, já inscrita nesse além de que

Ela afetaria, de resto, a própria ideia de um Ocidente

«pós-colonial» que, confrontado com o retorno dos seus outros, tenderia agora a

deslocar-se da sua própria forma – historicamente «moderna» e tradicional

lidar com o tempo e com a morte. Desses seus outros, Michel de Certeau haveria de trazer-nos, também, alguns exemplos:

nos falava já Homi Bhabha

– de

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their own construction, ordering, and selecting processes, but these are always shown to be historically determined acts. It puts into question, at the same time as it exploits, the grounding of historical knowledge in the past real. This is why I have been calling this historiographic metafiction. It can often enact the problematic nature of the relation of writing history to narrativization and, thus, to fictionali-

zation [

What is the ontological nature of the historical documents? (Hutcheon,

].

1991: 92-93; os dois últimos sublinhados são nossos)

Com efeito, o que se verifica é que a condição histórica dos actos de constru- ção, de ordenamento e de seleção documental não pode deixar de recolocar a questão da sua relação com aquele real «passado» que se constituiria, uma vez circunscrito à sua preterição, como base material de referência do seu discurso. O que deveria abrir, também, a historiografia – hoje já destituída do seu anterior papel de mediadora entre a arte e a ciência: «o supostamente neutro lugar medianeiro entre a arte e a ciência que muitos historiadores do século XIX ocuparam com tal auto-confiança e orgulho de possessão dissolveu-se na descoberta do carácter construtivista comum das afirma- ções, quer artística quer científica» (White, 1985: 28) – a algum diálogo cultural entre áreas distintas: pois «a maior parte dos pensadores não converge para o pressuposto do historiador de que a arte e a ciência são modos essencialmente diferentes de compreender o mundo» (ibidem). De resto, como observará ainda Hayden White, a este mesmo propósito, em Tropics of Discourse:

Thus, historians of this generation must be prepared [

history, as currently conceived, is a kind of historical accident, a product of a specific historical situation, and that, with the passing of the misunderstandings that

produced that situation, history itself may lose its status as an autonomous and self-

authenticating mode of thought. [

contemporary cultural dialogue only insofar as he takes seriously the kind of questions that the art and the science of his own time demand that he ask of the

materials he has chosen to study. (White, 1985: 29; 41)

]

to entertain the notion that

]

In short, the historian can claim a voice in the

E tal necessidade de participar do «diálogo cultural do seu tempo» decerto lhe imporia, no que diria respeito à arte contemporânea, uma referência autoral, não cingida a historiadores como E. H. Gombrich – de que Hayden White efetivamente socorre, no seu «The Burden of History» – mas ligada antes, quer a historiadores como Hans Belting, quer a filósofos como Arthur Danto, cuja noção da diferença entre a arte moderna e a arte contemporânea, passa pela dissociação em relação ao princípio de ruptura que o culto vanguardista do novo supôs. Com efeito, em nenhum momento Hayden White chega, nesse seu texto, a desprender-se dos preceitos de um modernismo ainda demasiadamente comprometido com uma ruptura entre passado e presente que se trata aqui de questionar. Ora, que nos diria então Belting, no seu Art

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que, sob o signo do tempo ou da morte, a confrontará – conforme pretendemos mos- trar, na leitura de O Outro Pé da Sereia – com o seu mais radical impoder. Porque:

Certes, l’historiographie «connaît» la question de l’autre. Le rapport du présent au passé est sa spécialité. Mais elle a pour discipline de créer des lieux «propres» pour chacun, en casant le passé dans un autre lieu que le présent, ou bien en leur suppo- sant la continuité d’une filiation généalogique (sur le mode de la patrie, de la nation, du milieu, etc., c’est toujours le même sujet de l’histoire). (Certeau, 1975: 414)

E esta sua vocação espacializante tenderia a excluir aquela mesma tempora- lidade que – no além que serve, como vimos, para Homi Bhabha, de «tropo» ao nosso tempo – faz oscilar vertiginosamente os seus limites, os remarcando, em suma, a partir dos espaços que eles mesmos separam e constituem, para – um no outro e, todavia, nele mas, simultaneamente, sem ele – os recolocar em reenvio, numa hetero- geneidade constitutiva que necessariamente os deve abrir à próximidade do próximo, à presença sem presença de um outro que se lhes impõe a partir do seu próprio inte- rior. É que, tal como acrescenta Michel de Certeau:

Techniquement postule sans cesse, des unités homogènes (le siècle, le pays, la classe, le niveau économique ou social, etc.) et ne peut pas céder au vertige qu’entraineraît l’examen critique de ces fragiles frontières: elle ne veut pas le savoir. Par tout son travail, fondé sur ces classements, celle suppose la capacité qu’a le lieu où elle se produit elle-même de donner sens, car les distribuitions insti- tutionelles présentes de la discipline soutiennent en dernier ressort les repartitions du temps et de l’espace. À cet égard, politique dans son essence, le discours de l’historique suppose la raison du lieu. (ibidem; o primeiro sublinhado é nosso)

Ora, a nosso ver, toda a questão se joga aqui. O discurso histórico, conforme reiteradamente nos diz Michel de Certeau: «autoriza-se pelo lugar [il s’autorise du lieu] que [lhe] permite explicar como ‘estrangeiro’ o diferente, ou como único o interior» (ibidem).

1.2. A historicidade da «ficção»: os passados do presente

É precisamente desse enraizamento legitimador – dessa persistente reinscrição

da «fronteira» como operador distintivo, sempre investida por uma relação imaginária

a partir da qual se separa o diferente como «estrangeiro», como um impróprio a

assimilar segundo o princípio de territorialidade por si mesma instituído – que resulta

o tipo de problemas colocado pela metaficção historiográfica. Diz-se, em A Poetics of Postmodernism:

The past really existed. The question is: how can we know that past today – and

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muito longe» (ibidem) – não será menos verdade que as suas fronteiras se irão mos- trando relativamente permeáveis e instáveis. De facto, não seria, apenas, a história a entrar na ficção – fenómeno de que, todos os exemplos de «metaficção historiográ- fica», enquanto forma particular do «romance histórico», se constituiria como

eloquente testemunho

expulsa da história – a intervir na história que dela se afasta. Não apenas no sentido em que a historiografia acolherá – ao fazer funcionar certas «hipóteses e regras

científicas presentes», e ao «produz[ir] assim modelos diferentes de sociedade» (ibidem: 55; sublinhado nosso) – uma certa ideia da sua função e eficácia, da sua operação e da sua acção sobre o real - «é ‘ficção’, não aquilo que fotografa o desem- barque lunar, mas aquilo que o prevê e organiza» (ibidem: 55), dir-nos-á Michel de

Certeau

em nome do qual se exerce a sua descrição do passado, se diria que ela o amputa o

encobre ou silencia, o exclui

sentar», afinal, oferece ao seu discurso. Daí, para Michel de Certeau, a seguinte

conclusão:

1. le réel produit par l’historiographie est aussi légendaire que l’institution histo- rienne; 2. l’appareil scientifique, par exemple l’informatique, a aussi des aspets de fiction dans le travail historien; 3. à envisager le rapport du discours avec ce qui le produit, c’est-à-dire tour à tour avec une institution professionnel et avec une métodologie scientifique, on peut considérer l’historiographie comme un mixte de science et fiction, ou comme un lieu où se réintroduit le temps. (ibidem: 57; sublinhados nossos)

Ora, é precisamente aqui que nos interessará ponderar a inscrição do lugar da ficção. Não da ficção, ou do romance histórico em geral – embora elas permaneçam aí em jogo – mas o de O Outro Pé da Sereia, em particular, pelo tipo de questões que nos suscita. Sobretudo – para retomar dos termos de Michel de Certeau – quanto a este lugar de ficção em que, no interior da história, o tempo se reintroduz. Porque:

– o subtrai daquele campo mesmo que «o real a repre-

– mas também na acepção em que, indelevelmente marcada pelo presente

Seria também a ficção – longa, metódica e zelosamente

La fiction est enfin accusée de ne pas être un discours univoque, autrement dit de manquer de «propreté» scientifique. Elle joue en effet sur une stratification de sens, elle raconte une chose pour en dire une autre, elle se trace dans un langage dont elle

tire, indéfiniment, des effets de sens qui ne peuvet être, ni circonscrits ni controlés.

[

]

Elle est «métaphorique». Elle se meut, insaisisable, dans le champ de l’autre.

[

]

Elle désigne une dérive sémantique. C’est la sirène dont l’historien doit se

défendre, tel Ulysse attaché à son mât. [

le réel, mais qui ne prétend ni le représenter, ni s’en créditer. (ibidem: 56)

]

la fiction [

]

est un discours qui informe

O que nos induz – quanto a esta apropriação do «próprio» – embora agora do ponto de vista do romance a procurar ressituar a História, a partir das suas próprias premissas. Pensá-la a partir do lugar desse seu outro que a ficção também é: aquele

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dem: 22). Ficção não apenas determinante, mas também constitutiva: «tal é a ficção que abre ao seu discurso o espaço em que ele se escreve. Ficção, com efeito, de ser simultaneamente o discurso do mestre e do servidor de ser permitido pelo poder e [de se encontrar] desfasado em relação a ele» (ibidem: 22-23; sublinhado nosso). Posto que, como nos é dito em Histoire et psychanalyse: entre science et fiction: «o real representado não é o real que determmina a sua produção. Ele esconde, por detrás da figuração de um passado, o presente que o organisa» (Certeau, 1987: 58). O que corresponderia, em outros termos, com o que nos diria também Hayden White, em The Content of the Form, ao chamar-nos aí a atenção, não apenas para a observação de Hegel, a respeito da relação entre a lei e a narratividade histórica, mas também para o impulso de «moralização da realidade», presente em toda a forma de narrativa, seja ela factual ou ficcional:

Once we have been alerted to the intimate relationship that Hegel suggests exists between law, historicality, and narrativity, we cannot but be struck by the frequency with which narrativity, wether of the fictional or the factual sort, presupposes the

existence of a legal system against wich or on behalf of which the typical agents of a

And this suggests that narrativity, certainly in

factual storytelling and probably in fictional story-telling as well, is intimately related to, if not a function of, the impulse to moralize reality, that is, to identify it with the social system that is the source of any morality that we can imagine.

narrative account militate. [

]

(White, 1987: 13-14; sublinhados nossos)

Essa «moralização» pressuporia, pois, o processo de uma apropriação. Um exame dos confrontos entre história e ficção entre «história» e «literatura», nomea- damente – acabaria, de resto, por mostrar, em Histoire et psychanalyse: entre science et fiction, não apenas o quanto «na ficção, o historiador combate uma falta [une manque] referencial, uma lesão do discurso ‘realista’, uma ruptura do casamento entre as palavras e as coisas»» (Certeau, 1987: 56), mas também o tipo de procedimentos que, em tal confronto, à historiografia assistem. Em que consistiriam eles?

] [

fiction s’autorise par là même à parler au nom du réel. En posant d’après ses propres critè-res le geste qui départage les deux discourses – l’un scientifique et l’autre de fiction – l’historiographie se crédite d’un rapport au réel parce que son contraire

est placée sous le signe du faux. [

Le procédé se repète jusque dans l’historiogra-

le discours technique capable de déterminer les erreurs qui caractérisent la

]

phie contemporaine. Il est simple: à prouver des erreurs le discours fait passer pour

].

Les débats entre «littérature» et histoire permettraient facilement d’illustrer cette partition. (ibidem: 54; sublinhados nossos)

réel ce qu’il leur oppose. [

]

Des lors la fiction est déportée du côté du irréel [

No entanto, se é verdade que «a historiografia ocidental luta contra a ficção» (ibidem: 53) - e que «entre a história e as histórias, esta guerra intestina remonta a

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limítrofe decorrente da multiplicação das suas «linhas de fronteira» e em relação à enterior consagração do novo enquanto valor de ruptura – se revelaria como suspensi- vamente privativa. Dir-nos-á então Homi Bhabha:

What is theoretically innovative, and politically crucial, is the need to think beyond narratives of originary and initial subjectivities and to focus on those moments or processes that are produced in the articulation of cultural differences. These ‘in- between’ spaces provide the terrain for elaborating strategies of selfhood – singular or communal – that initiate new signs of identity, and innovative sites of collabo- ration, and contestation, in the act of defining the idea of society itself. (Bhabha, 1994: 1)

1.1. Um tempo do entre - dois : ficção e história

Por outras palavras, o além [beyond; au-delà] que serve de tropo ao nosso tempo consagraria o elemento figural de um fin de siècle no qual se inscreve um certo «cruzamento do tempo e do espaço» pelo qual irrompem agora, segundo Bhabha, aquelas «complexas figuras» da suspensão que hão-de afetar, não apenas tais disjunções ou partições estanques, mas também toda a axiológica forma de dissime- tria que as sustenta. Assim, termos como identidade e diferença, presente e passado, dentro e fora, inclusão e exclusão são, em cada uma das oposições em que entram, diferentemente valorizados. O que nos deveria lembrar – em se tratando aqui da histó- ria – do quão, inevitavelmente, a historiografia se ocupa do «passado» em nome de um presente: «se vos deveis aventurar a interpretar o passado, apenas o podeis fazer a partir do mais pleno exercício do vigor do presente» (Nietzsche, 1997: 94). Pois que, como nos dirá Michel de Certeau, em L’Écriture de l’histoire – título em que se jogaria já a ambivalência de um duplo sentido: o de uma escrita e o de uma «[sagrada] escritura» – ela extrai a sua definição de uma «razão de Estado»:

En supposant une mise à distance de la tradition et du corps social, l’historio- graphie s’appuie en dernier ressort sur un pouvoir qui se distingue effectivement du passé et du tout de la société. Le «faire de l’histoire» s’arc-boute sur un pouvoir

politique qui crée un lieu propre (cité, nation, etc.) où un vouloir peut et doit s’écrire

Sa définition même

lui est fournie par une raison d’État: construire un discours cohérent qui précise les

«coups» dont un pouvoir est capable en fonc-tion de données de fait, grâce à un art

(construire) un système (une raison articulant des pratiques). [

]

de traiter les éléments imposés par l’environement. [

«prince de fait» et il produit le «prince possible». (Certeau, 1975: 21-22)

L’historien] Il dépend du

Motivo pelo qual, nessa retrospeção histórica, intervém uma certa e irredutí- vel componente de ficção: «quando o historiador procura estabelecer, no lugar do

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Com efeito, o que parece relevar desse além do «nosso tempo» é já o facto de ele se constituir então, do ponto de vista da sua «construção» – e, portanto, dos seus

«sistemas de significação»

interno acabaria, assim, por destituí-lo de qualquer horizonte próprio e exclusivo. E um dos signos da sua diferença seria, justamente, o deslocamento entretanto operado, no âmbito desse além, na sua relação com o passado. Com efeito, «além não é, nem um novo horizonte, nem um abandono do passado atrás de si» (Bhabha, 1994: 1;

como um tempo cindido, fracturado. Um espaçamento

sublinhado nos-so). O que nele se desloca é, antes, o tipo de separação – ou de rela-

ção disjuntiva

sido possível conceber em termos de começo e fim, em termos de ruptura ou

separação estanque:

- que, entre passado e presente, ainda em meados do século XX, teria

Beginnings and endings may be the sustaining myths of the middle years; but in the fin de siècle, we find ourselves in the moment of transit where space and time cross to produce complex figures of difference and identity, past and present, inside and outside, inclusion and exclusion. For there is a sense of disorientation, a disturbance of direction, in the ‘beyond’; an exploratory, restless movement, caught so well in the French rendition of the words au-delà – here and there, on all sides, fort / da, hither and thither, back and forth. (ibidem)

Não apenas se suspenderiam, assim – no movimento pressuposto pela «remar- ca» que nesse além se investe – apenas os anteriores modos de partição delimitadora. Perturbar-se-ia ainda, nessa mesma medida, o sentido de orientação temporal que lhe estivera até então associado, na sua anterior descrição em termos de desenvolvimento

e de progresso. O «abandono do passado atrás de si» que lhe fora próprio teria, de

resto, constituído, segundo Michel de Certeau, o modo específico pelo qual o Ociden-

te teria lidado, até então, com o tempo e com a morte:

L’histoire moderne occidentale commence en effet avec la différence entre présent

L’historiographie sépare d’abord son présent d’un passé. Mais elle

répète partout ce geste de diviser. Ainsi sa chronologie se compose de «périodes» (par exemple Moyen Âge, Histoire moderne, Histoire contemporaine) entre lesquelles se trace à la fois la décision d’être autre ou de n’être plus ce qui a été jusque-là (la Renaissance, La Révolution). À tour de rôle, chaque «nouveau» temps

a donné lieu à un discours traitant comme mort ce qui précédait, mais recevant se

Bien loin d’aller de soi, cette

construction est une singularité occidentale. (Certeau, 1975: 16-17; sublinhado nosso)

et passé. [

]

«passé» déjà marqué par des ruptures antérieures. [

]

Seria, portanto, esta sua divisora singularidade a entrar, agora, em crise. O «nosso tempo» seria, assim, precisamente o da interpelação da sua própria e emble- mática diferença. A sua novidade residiria, então, nesta ambivalência que – no seu fort / da, no seu aqui e ali, no seu jogo de presença e ausência, ou na (in(de)cisão

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Título: Mia Couto - o lugar do romance, nos entre - tempos da História

Autor: José Paulo Cruz Pereira. Instituição: Universidade do Algarve – Departamento de Artes e Humanidades.

Resumo: a nossa leitura de O outro Pé da Sereia acompanha, em especial, a forma como aí se questionam «a História» e a sua verdade. Fá-lo a partir da epígrafe colhida

da boca de uma personagem: a de «Arcanjo Mistura» – o barbeiro-«filósofo» de «Vila

Longe». Portadora de um outro sentido da morte, é no horizonte dessa sua diferença que colocamos a questão da forma como, no âmbito do processo da colonização: a) essa «História» é já, antecipadamente, deposta do seu anterior estatuto; b) o violento

(des-)encontro entre culturas distintas nos induz à percepção de um espaçamento que abre o real às tensões que atravessam, quer os dissensos que o percorrem, quer a sua própria ambivalência; c) a viagem se afirma aí, à semelhança da escrita, como movi- mento desincorporador e de travessia das nossas «fronteiras interiores»

Palavras-chave: metaficção, pós-colonial, informe, cultura, alteridade.

1. A ficção da História: poder e saber

As primeiras palavras de The Location of Culture – da autoria do filósofo in-

diano Homi K. Bhabha – dizem-nos o seguinte: «é um tropo do nosso tempo o situar-

se a cultura no reino do além [beyond]» (Bhabha, 1994: 1). O que se daria em teste-

munho do facto de que «a nossa existência é hoje marcada por um tenebroso sentido

da so-brevivência, de que se vive sobre as linhas de fronteira do ‘presente’» (ibidem).

A nossa experiência contemporânea seria, assim, duplamente marcada: quer por uma

certa oscilação e instabilidade dos seus limites; quer uma incerteza posicional a que a

sua multiplicidade, o seu espaçamento, fatalmente induzem. Ora, toda a questão

condutora da nossa leitura – já projetada no horizonte de O Outro Pé da Sereia,

romance do escritor moçambicano Mia Couto – passará pela exploração das suas im-

plicações. O que aqui abordaremos será, pois, a sua respetiva transposição, quer nos

domínios da historiografia, quer de uma certa forma de romance histórico para a qual

Linda Hutcheon se servirá da designação: «metaficção historiográfica». Desta nos

dirá, no seu A poetics of Postmodernism:

Historiographic metafiction refutes the natural or common-sense methods of distin-

guishing between historical fact and fiction. It refuses the view that only history has a truth claim, both questioning the ground of that claim in historiography and by asserting that both history and fiction are discourses, human constructs, signifying

The «real»

referent of their language once existed; but it is only accessible to us today in textualized form: documents, eye-witness accounts, archives. The past is «archeo- logized», but its reservoir of available materials is always acknowledged as a textua- lized one. (Hutcheon, 1991: 93)

systems, and both derive their major claim from that identity. [

]